Pode
queixar-se Paulo Bento de uma maré de lesões e casos estranhos mesmo à
porta dos compromissos “tudo ou nada” da Seleção Nacional. Não me
recordo de uma maré de lesões e de indisponibilidades sortidas (era
preciso tanto mistério e tanta linguagem cifrada para justificar a
“pequena cirurgia” que impediu Danny de vir dar uma ajuda aos seus
compatriotas?) que, de uma forma tão intensa e concentrada, tenha
desfalcado a equipa de Portugal. Se contarmos que, apesar da bonança
registada em campo, o Caso Ricardo Carvalho ainda não pode estar
esquecido e muito menos ultrapassado, o ambiente não estará desanuviado e
propício à concentração exclusiva nos jogos em falta, ao contrário do
que todos desejaríamos.
É
verdade que, desde os tempos como técnico principal do Sporting, Paulo
Bento nos habituou a ser alguém capaz de lidar com a pressão e com a
tensão. Mas lidar não é sinónimo de lidar bem – mais uma vez, Paulo
Bento deixou-se escorregar para terrenos controversos, em vez de
apresentar uma argumentação preventiva. Claro que, sobre todos, se está a
pensar no exemplo de Bosingwa, que volta a ficar de fora das opções sem
uma palavra, sem uma explicação, sem que se purifique o ar que, neste
caso concreto, é tão turvo que gera dúvidas quanto aos motivos do
selecionador. Mas, ao invés, há algumas convocatórias que também não
parecem evidentes: Ricardo Costa, preterido no Valencia? Beto, por que
joga, e simultaneamente Eduardo, por que não joga? E onde fica Quim?
Eliseu? Sereno?! Outras fossem as circunstâncias e quase apeteceria
dizer que do “clube privado” de Scolari e da ausência de critério e de
nexo de Queiroz chegámos a um momento de aflição em que entra quem
passar à porta…
Depois,
renasceu a tendência para fazer da Seleção uma espécie de confessionário
(ou falatório) para o que acontece nos clubes. Muito em concreto, as
declarações de Ruben Amorim, agradecendo ao selecionador não usar do
mesmo critério que o treinador do Benfica, foram descabidas e ingratas.
O
antigo jogador do Belenenses não desconhece que é visto como um dos
homens próximos de Jorge Jesus – e usou esse trunfo, quando lhe deu
jeito. Deveria ter pensado mais e/ou melhor antes de apontar a arma ao
técnico que o empurrou para um grande clube, que o “inscreveu” na
Seleção em 2010. Muito francamente, pergunta-se: no Benfica, quer jogar
no lugar de quem? De Gaitán, Bruno César ou Nolito? De Javi García? De
Witsel? De Aimar? Faz parte de um plantel rico e cheio de alternativas. E
se Saviola pode ficar de fora de quando em vez, por que há-de Ruben de
ter lugar cativo?
Dito isto, tudo de bom para sexta e para terça. Haverá tempo para discutir a Seleção, depois do carimbo nos passaportes.
João Gobern in Jornal Record