Depois de treinador de Bancada, o árbitro de Bancada: Uma Evolução Natural
Confesso que tenho dificuldade em compreender os receios que rodeiam a
hipotética greve dos árbitros na semana do Porto – Benfica. Não sei se
ainda mantém em rigor a velha regra segundo a qual, na ausência do
árbitro, deve ser recrutado um espectador na bancada para arbitrar a
partida. S assim fosse, o mais provável seria que o árbitro do jogo
acabasse por ser um adepto do Porto. Sinceramente, creio que ninguém
daria pela diferença. Seria um Porto – Benfica perfeitamente normal. Já
aqui recordei a noite histórica em que o Sr. Donato Ramos, depois de ter
permitido que o Vítor Baía defendesse com as mãos fora da área, anulou
um autogolo do Porto por fora-de-jogo posicional de um jogador do
Benfica. Hoje, lembro o saudoso árbitro Carlos Calheiros (que é também o
eminente turista José Amorim), que um dia assinalou um penalty contra o
Benfica por uma razão que permanece misteriosa até agora. Na primeira
repetição, José Nicolau de Melo descortinou (e José Nicolau de Melo
descortinava como ninguém) uma falta de Mozer. Na segunda repetição,
julgo que aventou uma mão de Hélder. E, na terceira repetição, concluiu
que não existia falta nenhuma das infracções anteriores nem qualquer
outra, mas optou por dar o benefício da dúvida ao árbitro. Gente maldosa
comentou que o benefício da dúvida tinha sido o menor dos benefícios
que o árbitro tinha recebido nessa noite. Acredito mesmo que qualquer
adepto do Porto faria um trabalho mais isento.
Quanto à greve, não sei se tem razão de ser, mas não percebo a forma
do protesto. Quando os trabalhadores da TAP fazem greve, não comparecem
na TAP, que é a morada do patrão. Quando os funcionários da EDP fazem
greve, abstêm-se de comparecer na EDP, que é a morada do patrão. Quando
os árbitros fazem greve, ameaçam não comparecer no estádio do Dragão?
Que esquisito.
Todos estes meses depois, o túnel da Luz continua a afastar o
inigualável Givanildo da convocatória da selecção brasileira. Há,
perversa infra-estrutura! Perversa e sectária, que o David Luiz passa lá
todas as semanas e continua a ser convocado.
“ (…) é assustador verificar a frequência com que, graças a uma
redacção voluntariamente ambígua da lei, são anuladas em julgamento as
escutas telefónicas.”
MIGUEL SOUSA TAVARES
Expresso, 11 de Junho de 2007
“ Durante quatro semanas a fio, o jornal «Sol» levou a cabo,
tranquilamente, a divulgação de escutas telefónicas recolhidas num
processo em segredo de justiça e abrangendo até alguma gente que, tanto
quanto sabemos, não é suspeita de qualquer crime. (…) E todos nós, mesmo
os discordantes, fomos obrigados a ler as escutas e concluir a partir
dos factos e indícios nelas contidos, sob pena de sermos excluídos da
discussão pública”.
MIGUEL SOUSA TAVARES
Expresso, 25 de Março de 2010
Como já aqui tive ocasião de notar, há um grande consenso social em
torno do fenómeno das escutas. Até gente de clubes diferentes se
encontra no essencial, o que é notável e bonito. Por exemplo, eu
concordo com o Miguel Sousa Tavares quando diz que é assustador o número
de escutas telefónicas, algumas bem incriminadoras, que são anuladas em
tribunal. E também me sinto obrigado a tomar conhecimento dos factos e
indício nelas contidos, para não ser excluído da discussão pública. O
que pretende quem deseja fingir que as escutas não existem é decretar a
obrigatoriedade da hipocrisia. E isso, fiquem sabendo, Miguel Sousa
Tavares nunca permitiria. E eu estou com ele nesta luta. Juntos
venceremos, tenho a certeza.
“ Jornalista – O best seller de Carolina assume foros de escândalo. As críticas vêm até indefectíveis portistas.
Rui Moreira – O Sr. Jorge Nuno Pinto da Costa devia
ter falado com os adeptos, devia ter falado com os sócios, sobre esta
matéria. E devia ter-lhes pedido desculpa
(…)
Jornalista – As críticas aos administradores da SAD não se limitam à gestão.
Rui Moreira – À volta daqueles que são os grandes
líderes, aquilo que acontece é que se começa a confundir a fidelidade
com o cortesão. Perante o Sr. Jorge Nuno Pinto da Costa são
absolutamente acríticas, mas nas costas do Sr. Jorge Nuno Pinto da Costa
são as pessoas mais críticas. E esta tendência, que é típica dos
cortesãos, como nós sabemos, aquilo a que se chama jogos de corredor, é
típica também de uma instituição cuja a liderança se aguenta durante
muitos anos. (…) Aquele passeio da fama que o FC Porto tem, Faltam lá
alguns nomes, claramente.
Jornalista – Mas quem é que é o responsável por isso?
Rui Moreira – É a política de guerrilha”.
Numa interessante reportagem da RTP, disponível aqui: http://www.youtube.com/watch?v=5yjllkmd4 wg&feature=related.
Tenho acompanhado com muito interesse o Trio D’Ataque na sequência do
despedimento com justa causa de Rui Moreira. Por muito que me custe
admiti-lo, o comunicado emitido pela SAD do Porto estava correcto: de
facto, o novo elemento (além de ter a estanha mania de permanecer no
estúdio durante toda a duração do programa, honrando o contrato que o
liga à RTP), emite livremente opiniões que são da sua exclusiva
responsabilidade. O novo modelo do programa faz lembrar o tempo em que
Rui Moreira não era sequer candidato a sócio do ano, antes de ter
percebido que as suas opiniões não eram as mais correctas, quer para as
suas ambições inconfessadas, quer para a sua saúde. Espero que o estádio
do Dragão tenha corredores espaçosos: há mais um jogador para albergar.
P.S. - Tanto Miguel Sousa Tavares (que esta semana
nos obsequiou com uma excelente redacção subordinada ao tema A Caça aos
Patos) como Rui Moreira (que fornece aos leitores informações
interessantíssimas, como o facto de não ter visto um jogo por estar a
entreter um Sr. Que até é comendador) insistem que eu não escrevo aqui
sobre o que devia. O jurista que cita a declaração de independência
pensando estar a citar a constituição americana considera que eu não sei
do que falo; o comentador desportivo que foi despedido por não comentar
tem reparos a fazer aos meus comentários. Vivemos num mundo estranho.
Ricardo Araújo Pereira, 30 de Outubro in Jornal A Bola


