Novembro de Risco
Pouco ou nada adianta, passadas todas estas semanas sobre o início das
competições, continuar a chorar a perda de Di María e de Ramires. De
pouco vale o regozijo pela “ressurreição” de Roberto, que voou em linha
direta de carrasco a herói. E já pouco dizem, a adversários como a
adeptos, algumas bravatas extemporâneas do treinador do Benfica que, na
presente época, parece ter o condão de encher o peito antes das partidas
em que a equipa parece um imenso vazio (FC Porto na Supertaça, Schalke e
Lyon na Liga dos Campeões). Sejamos honestos: por razões de estrutura
ou de elenco, de conjuntura ou de atitude – cada um escolherá as suas
favoritas, por mim não me custa juntá-las todas –, este Benfica ainda não trouxe de volta o espetáculo nem a eficácia com que brindou todos os espectadores na última temporada.
É
verdade que foi muito afetado por uma inexplicável “falsa partida”
(derrotas com a Académica, o Nacional, o Vitória de Guimarães), depois
de uma pré-época quase em pleno. Mas quando se fala de recuperação, é
preciso saber ver: dos quatro triunfos consecutivos nas últimas rondas,
as três vitórias mais recentes foram obtidas pela margem mínima. E, pelo
meio, sem que nada o fizesse prever, o duplo deslize na Champions
passou, de forma sólida, a imagem de uma equipa com oscilações de humor,
com atletas decisivos à procura de sacudir o marasmo, com uma margem de
erro que Jesus parecia ter erradicado há um ano. Convoco, mais uma vez,
os números: o FC Porto de Villas-Boas (que só os mais desatentos ou
facciosos podem teimar em não levar a sério e que já junta os aplausos
aos resultados) tem tantos pontos de diferença para o segundo como os
que se registam entre este e o… décimo segundo classificado.
Quer
isto dizer que, em novembro e em três provas distintas, o Benfica não
tem margem de erro. Na Liga dos Campeões, ao receber o Lyon e ao
deslocar-se a Israel, só interessam dois triunfos. Tudo o resto será
comprometedor para quem se assumiu “aspirante” na prova milionária. Na
Taça de Portugal, idem, por ser a eliminar e porque o adversário se
chama Braga. Na Liga, porque uma derrota no Dragão é – admita-se –
sinónimo da entrega do título, a seis meses do final do campeonato. Ou
alguém acredita que, embalado e com dez pontos de avanço, este FC Porto
vai desatar a tropeçar daí em diante?
Éfácil perceber que o
Benfica precisa de estabilidade, dispensando guerrilhas (sem prejuízo
dos princípios), e necessita de aparecer (e comparecer) com mais alma e
mais calma. As grandes batalhas estão aí à porta e não vão dar segundas
oportunidades. Sobretudo a uma máquina com a dimensão do Benfica, com
contas e receitas, que não pode gastar meio ano a ver passar os navios.
João Gobern in Jornal Record