quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

João Gobern: Gestão e indigestão



No fecho da primeira volta, em que os pontos ultrapassam os conquistados em igual período na época do último título (em 2009-2010) e em que os desempenhos começam a aproximar-se dos alcançados pela máquina de ataque concebida por Jorge Jesus e municiada por Luís Filipe Vieira para essa temporada, o Benfica começou a partida com o Vitória de Setúbal com sete recrutas de primeiro ano. Ou seja, com sete jogadores que foram chegando à Luz por volta das últimas férias de verão. A saber: Artur, Emerson, Matic, Witsel, Nolito, Bruno César e Rodrigo. As quatro exceções foram Maxi Pereira, Luisão, Jardel e Oscar Cardozo. Dir-me-ão alguns que, em circunstâncias normais, estariam em campo Javi García, Aimar, Gaitán, até Saviola, todos com mais vasta quilometragem de Benfica nas pernas. É verdade, mas também não podemos esquecer Garay, reforço que pegou de estaca até à lesão.

Arredondando, para cima ou para baixo, é louvável a capacidade de integração e aproveitamento que o técnico do Benfica consegue num plantel que aguenta sem sobressaltos de maior a rotação dos avançados, que resiste às lesões de uma estrela como Gaitán e de um verdadeiro maestro como Pablo Aimar, que sobrevive às ausências de Luisão e Garay, hoje a melhor dupla de centrais a jogar em Portugal. Mais: que ainda dispõe de margem de crescimento interna, bastando para tanto que Enzo Pérez tenha regressado com disposição de mostrar que é um homem e um profissional, sem recaídas depressivas. Neste quadro dinâmico – e de valorização dos atletas, como vai ficando provado pelas vendas alcançadas, se pensarmos em Di María, Ramires, David Luiz, Fábio Coentrão – só custa entender como ainda há gente que não compreende que a titularidade é um bem escasso e a utilização um prémio pelo qual é preciso lutar, treino após treino. 

Não haverá quem explique a Ruben Amorim que mais vale integrar um elenco destes, mais vale um jogo na montra da Champions ou num clássico da Liga, do que a utilização regular numa equipa mediana e sem ambições? É que estamos a falar de um daqueles casos em que o jogador precisa mais do clube do que o contrário.

Depois da gestão, a indigestão sportinguista. Depois da Luz, de Coimbra, da recepção ao FC Porto e da viagem a Braga, é vital rever os objetivos, com o terceiro lugar na Liga e a Taça de Portugal à cabeça. Não cerrar fileiras desde já pode significar um naufrágio semelhante ao da última época. Com duas diferenças essenciais: uma tem a ver com as expectativas que se alimentaram. Quanto maior a queda, mais séria a zanga. A outra prende-se com o investimento. Tantos milhões sem retorno são um estado transitório que não augura nada de bom para o que vem a seguir.

João Gobern in Jornal Record

1 comentário:

Jotas disse...

A indigestão leonina, como sempre, começou por causa do Benfica, quando perdeu na Luz.

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