terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Mercado e mercados - João Gobern


Li há pouco tempo uma biografia em que a infortunada protagonista defende algo como isto: mais vale comprar bom, porque se usa e porque dura, do que apostar no barato, que acaba no armário, sem utilidade, só a ocupar espaço. Claro que as compras seriam outras, como os tempos. Mas recordo-me deste princípio quando os clubes de futebol portugueses se aprestam para nova fase de aquisições, sem poderem garantir que estas correspondem a efetivos reforços. As razões são múltiplas e percorrem todo o espetro que vai de uma conjuntura recessiva à escassez de boa matéria-prima a preços acessíveis. 


Chega a ser assustadora a pressão dos adeptos para que se avance em direção ao mercado – o FC Porto precisa de um homem de área, matador feito, o Benfica necessita de um ativo na lateral-esquerda, o Sporting busca quem possa comandar, até pela experiência, o centro da defesa. Resta saber se o equilíbrio precário dos orçamentos não se estilhaça com este movimento, sobretudo num momento em que, resultados desportivos à parte (sendo aí o FC Porto mais penalizado depois de hipotecar a receita estimada com a Champions e precisando de uma repetição de nível na Liga Europa para minorar o descalabro), é inevitável que as receitas baixem, até pela austeridade que se abate pelos pagantes dos bilhetes e das quotas. 


Agora vejamos: Iturbe, Alex Sandro, Danilo, Emídio Rafael, Enzo Pérez (se for resolvida a sua rábula de inadaptado), Luís Martins, David Simão, Ismailov, Jeffren, Rinaudo e Rodríguez podem assumir rapidamente o papel de mais-valias nos respetivos locais de trabalho. E há em cada um, para situações mais apertadas, um múltiplo e valoroso quadro de emprestados que, escrutinado a sério, talvez possa permitir um subsídio de qualidade às respetivas disponibilidades. Felizmente, Luís Filipe Vieira e Godinho Lopes já iniciaram a abordagem pedagógica à questão, deixando perceber que, no máximo, haverá escolhas cirúrgicas. Não sendo Pinto da Costa um adepto das mexidas a meio da temporada, talvez o maior problema dos grandes venha a ser a batalha para guardarem as respetivas estrelas – e João Moutinho, Gaitán ou Rui Patrício andam por aí nas bocas do mundo… Pior é a situação de quem, mesmo avisado de que o abismo está um passo adiante, teima em avançar sem precaução. Quando ouço falar de “ajustamentos de plantel” ou de compras mais específicas para clubes que já respiram com dificuldade, fico com a ideia de que há uns apressados barões do futebol que vivem numa bolha, cada vez mais distante da realidade. Por favor: esqueçam o mercado e ouçam a linguagem cruel dos mercados, que não têm problemas em classificar como lixo até o que parece luxo. Já agora: Bom Natal a todos. Oxalá.


João Gobern in Jornal Record

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