E justiça para todos
Admito
que fossem múltiplos os motivos de Manuel Machado para desvalorizar a
Taça da Liga, atacando o favorecimento dos poderosos em que esta lhe
parece estar assente. Por um lado, quis retirar pressão à equipa que
orienta, definindo prioridades que, de forma antecipada, a ilibassem,
qualquer que fosse o resultado do duelo regional disputado em casa do
grande rival minhoto. Por outro, pôs o dedo na ferida, dizendo em voz
alta o que muitos pensam: que a competição idealizada por Hermínio
Loureiro para dar rodagem a jogadores, mais tempo e mais jogos às
equipas, novas receitas aos clubes, enferma de um regulamento que
estende a passadeira das meias-finais aos “grandes” e que empurra os
“pequenos” para o papel de parentes pobres.
Basta
notar a constituição dos grupos na segunda fase da prova, com Benfica,
FC Porto e Sporting cada um em seu canto e cada um com direito a
defrontar uma equipa de escalão inferior. Se dúvidas houvesse, o
calendário encarrega-se do resto: os três “grandes” têm direito a dois
jogos caseiros – só se deslocam na última jornada e aos campos dos
adversários que militam no escalão secundário (Benfica a Vila das Aves,
FC Porto a Barcelos, Sporting ao Estoril). Seria difícil falar mais
claro por linhas tortas: neste modelo, esta fase corresponde a um
desejo expresso de ver os abastados numa via rápida para as
meias-finais da prova que, de resto, é (bem) promovida pela estação que
comprou os direitos de transmissão televisiva como a Taça “dos grandes
jogos”.
Se
juntarmos a isto a circunstância de a Taça da Liga não garantir lugar
europeu nem nenhuma recompensa desportiva especial (pode ser um prémio
de consolação, como aconteceu com o Benfica de Quique Flores),
percebe-se que o empenhamento na competição nunca irá além de uma
participação resignada, mas nunca entusiasta, das diferentes equipas
nela envolvidas. Razão mais do que suficiente para julgar pertinente uma
revisão – com tempo suficiente para permitir desenvolver as boas
ideias que apareçam – do respetivo regulamento, para que desapareça
esta ideia de inclinação a favor de quem mais pode. A surpreendente
derrota caseira do FC Porto – que fica diretamente dependente dos
resultados do Nacional para saber se ainda terá uma palavra a dizer na
competição – é, neste contexto, um milagre, que correu mal aos
contabilistas.
Mas
até aí os adeptos portistas alinharam pelo pragmatismo: antes perder
na Taça da Liga do que no campeonato, apesar do considerável avanço. Ou
seja, na escala atual dos valores, mais vale uma eliminação provável
do que um percalço recuperável. Não abona a favor de uma prova em que
gostaríamos de ver prolongado o título de um grande filme – “E Justiça
para todos”.
João Gobern in Jornal Record