«Ou bem que se é adepto, ou bem que se sabe
ver as coisas. Não quero estar aqui a gabar-me, mas eu não sei ver coisa
nenhuma. Se é para ser adulto e ponderado, dedico-me à química
analítica. O futebol não é para isso.»
Eu digo-vos qual é o principal problema de ser do
Benfica: é muito difícil ser grande. Dá muito trabalho ser um colosso.
Um gigante está sempre tramado: se ganha, é um acaso normal a que
ninguém liga; se perde, é uma catástrofe que todos assinalam. O leitor
lembra-se da história de David e Golias? Vá lá buscar a Bíblia, que eu
espero. Veja aí, no Livro de Samuel, se eu não tenho razão para
simpatizar mais com o gigante do que com o pastor. Golias era um gigante
fabuloso, imbatível. Ganhou, de certeza, inúmeros combates antes do que
aí vem descrito. Que se saiba, só perdeu um. Pois é exactamente esse
que vai parar ao maior best-seller de todos os tempos. Azar, não? Hoje
percebemos que a luta era desigual e injusta para Golias. O maior
adversário era o dele. Golias lutava contra o seu próprio medo (que, por
ser o medo de um gigante, é igualmente gigante) e contra a História.
David combatia apenas um simples gigante.
Com o Benfica sucede o mesmo. Num jogo como o de ontem, contra a Naval, é o Benfica que parte em desvantagem. Está a lutar contra a memória, contra o futuro, contra a própria Derrota, com "D" grande — e contra 11 sacanas vestidos de verde, que isto não pode ser só poesia. Quem é mais forte? Toda a História ou um pobre gigante indefeso? Eu, como tendo a ficar do lado dos mais fracos, nestes casos torço sempre pelo gigante. Para mim, ser do Benfica é um imperativo ético.»
A Chama Imensa
Ricardo Araújo Pereira
Preço Fnac: 14,31 €

