Caro André Villas-Boas,
Algures na década de 90, Vasco Pulido Valente batizou genialmente
António Guterres como “picareta falante”. Quando penso em ti, é disso
que me lembro. Calado tantos anos à sombra de um gigante, chegaste a
Portugal com uma necessidade infinita de afirmação e uma vontade
irreprimível de palrar. Com a excitação juvenil de quem abandonou
recentemente uma estranha prisão, a tua língua soltou-se.
Em pouco mais de um ano, ouvi-te arengar sobre tudo e mais alguma
coisa. Discursas sobre o Benfica, muito, mas também sobre o Sporting,
sempre em picanço; teorizas as falhas da Liga Europa, explicas a teoria
do caos no futebol, gabas as metodologias dos treinos, defendes a
primazia do coletivo sobre o individual, classificas os clubes que vêm
da Champion como “frustrados”, reforças os grandes méritos de Jesus
(dias depois de o ter humilhado), relembras os castigos da época
passada, e opinas sobre arbitragens, Vítor Pereira, Benquerença, Jorge
Silva ou Elmano Santos. Munido de mil e uma ideias, raciocínios e
pontos de vista, peroras aos microfones, lançando bicadas à direita e à
esquerda, como a picareta falante.
A princípio, isto irritava-me. Depois, passou a cansar-me, e só me
apetecia perguntar, como o rei Juan Carlos fez certo dia a Hugo Chavez:
“Por que no te calas?”. Mas, agora já te acho graça. Na verdade,
perante a penúria que tem sido este campeonato, se não fosses tu e as
tuas inventivas teses, esta época não tinha ponta por onde se lhe
pegasse. Bem hajas, por entreter o povo com a tua retórica malabarista.
Domingos Amaral in Jornal Record
