Esforços e reforços
Seria útil que Jorge Jesus tivesse utilizado os vinte minutos em que,
ontem, o Benfica esteve matematicamente afastado da continuidade nas
competições europeias para repensar as suas intervenções públicas. É
certo que fazer confluir para um só homem as culpas de uma exibição
desastrada e abúlica, tão arrastada como se do resultado não dependesse o
(relativo) equilíbrio financeiro e a salvaguarda da última fatia do
prestígio amealhado na época passada, assume foros de injustiça –
afinal, o treinador não pode entrar em campo para empurrar os jogadores…
Do mesmo modo, é verdade que, nas declarações do técnico de um grande
clube, há que contar sempre com uma percentagem reservada à motivação
do plantel e ao empolgamento dos adeptos. Mas o grave, neste caso, está
no abismo que emerge entre o que se diz e o que se vê.
Sejamos honestos: com exceção de uma hora frente ao Lyon, na partida
da Luz, a participação do Benfica na Liga dos Campeões fica abaixo do
medíocre, tanto pelas exibições como pelos resultados. O que fica para a
história são quatro derrotas em seis jogos e a desvantagem no marcador
face a todos os oponentes: 1-4 frente ao Schalke 04, 4-5 na soma com o
Lyon, até 2-3 nos desfechos com o Hapoel. Mais: os benfiquistas que
suspiraram de alívio com o golo de Lacazette não vão esquecer que a sua
equipa entrou a depender de si própria e acabou a rezar pelo milagre
em Lyon. Antes de mais esta pintura esborratada, já Jorge Jesus tinha
defendido que o Benfica poderia chegar mais longe na Liga Europa do que
fez na época passada. Só para avivar a memória: o campeão nacional
despediu-se nos quartos-de-final. O que levanta a questão – a jogar
assim, sem pressão, alta ou baixa, sem velocidade, alta ou baixa, sem
eficácia, ao invés da última época, alguém acredita na verosimilhança
deste objetivo?
É preciso mudar muita coisa, a começar pela atitude. Como é
indispensável desvendar o grande mistério da temporada benfiquista: se
os jogadores são praticamente os mesmos (e Jesus teve tempo e dinheiro
para substituir à altura Di María e Ramires), de onde vêm tantas
diferenças? Vem aí o mercado de Janeiro e a tentação pelos reforços é
grande, mesmo tendo consciência de que é muito mais difícil fazer bons
negócios no Inverno. Talvez por isso, se troque o reforço pelo esforço:
sem a resolução das maleitas internas, os que vierem podem alinhar no
lado dos problemas e não das soluções. Acima de tudo, o Benfica precisa
jogar mais e melhor. Caso contrário, ficará a falar sozinho, quando
protestar contra os Elmanos desta vida. Claro que a reclamação é justa,
nas primeiro é necessário fazer pela vida dentro de campo. Chama-se
autoridade moral, se não me engano.
João Gobern in Jornal Record

