quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Crónicas Leonor Pinhão

Morreu de cansaço o polvo Paul que, sem saber ler nem escrever, se tornou numa das celebridades maiores do último campeonato do mundo de futebol. O polvo Paul acertou sempre no engodo que lhe deram a escolher em forma de substância alimentar e previu todos os resultados da selecção alemã na África do Sul bem como o resultado da final disputada entre a Holanda e a Espanha.
Não foi coisa pouca, ainda para mais debaixo de água.
O futebol mundial perdeu, assim, o seu oráculo mais tentacular. Em Portugal, felizmente, ainda temos o professor Karamba e outros professores adivinhadores, mas foi com lástima que vimos partir Paul, o único que nos poderia garantir, com razoável antecedência, quantos dos quatro jogadores quatro vezes amarelados do Benfica resistirão amanhã, frente ao Paços de Ferreira, ao quinto cartão amarelo e à consequente exclusão do jogo com o FC Porto na jornada seguinte.

Águia, alegadamente prima da águia Vitória, que o Benfica cedeu em regime de franchising à Lazio, recusou-se a voar no domingo passado no Olímpico de Roma, escapou-se para a cobertura do estádio e foi dali que assistiu à vitória dos donos da casa sobre o Cagliari e ao consequente reforço da posição da Lazio como comandante isolada do campeonato italiano de futebol.
Sem querer cair no domínio da especulação fácil, é de desconfiar que a águia que está em Roma não só não é prima da águia Vitória como é a própria águia Vitória que terá sido raptada ou que, numa confusão de identidades, se vê agora muito contrariada em Roma, longe da Luz e do Benfica que é o seu clube desde o ninho em que nasceu.
Teríamos assim, de uma assentada, a explicação para o excelente início de campeonato da Lazio, abençoada pela águia original, e para o menos excelente arranque de um Benfica confundido sob as asas de uma falsificação grosseira de pássaro.
O que também, por si só, justifica a desvalorização completa do incidente registado entre dois stewards de serviço, o tratador Barnabé e a falsa águia Vitória no decorrer do intervalo do jogo com o Arouca, para a Taça de Portugal.
Ah, se aquilo fosse com a original outro galo cantaria.

Deixemos agora em paz os animais. Vamos falar de árbitros. Michel Platini mostrou-se no início desta semana totalmente contrário à introdução de tecnologias no futebol que possam corrigir e desautorizar os julgamentos dos juízes de campo. Para o presidente da UEFA, um futebol sem erros de arbitragem arriscava-se a descer aos patamares de emoção virtual da PlayStation que mesmo assim, sem erros dos árbitros, é o jogo de computador mais vendido em todo o mundo.

No entanto, se os inventores da PlayStation tivessem a ousadia de introduzir no mercado um jogo com erros de árbitros, com roubos de igreja, com fruta, café com leite e viagens ao Brasil, certamente não só venderiam menos o seu produto como até contribuiriam de forma exponencial para o aumento de venda de televisões tantos seriam os aparelhos partidos, esmigalhados, incendiados, pela justa revolta dos jovens e dos menos jovens consumidores do jogo electrónico.

Em Portugal estamos ainda numa fase menos electrónica da arbitragem. Os nossos juízes fazem o que podem para melhorar a sua reputação e como são cidadãos iguais aos outros anunciaram, no final da última semana, a intenção de fazer uma greve por questões que se prendem com a fiscalidade e a segurança social. Está visto que são humanos!

Os árbitros portugueses reuniram-se e ameaçaram não comparecer em campo no fim-de-semana de 6 e 7 de Novembro que é, precisamente, o fim-de-semana correspondente à jornada do campeonato em que o Benfica visita o FC Porto.
Francamente, torna-se difícil descortinar onde é que está a ameaça de não haver árbitro no Estádio do Dragão a 7 de Novembro. É que, bem pelo contrário, até me parece um grande descanso.

Depois do Benfica, chegou a vez de o Sporting de prestar homenagem aos 33 mineiros chilenos. O embaixador do Chile em Portugal deslocou-se a Alvaláxia, recebeu no centro do relvado 33 cachecóis do Sporting, personalizados com os nomes dos heróis subterrâneos e quando, muito agradecido, perguntou ao presidente Bettencourt e ao director Costinha se gostariam de receber no seu estádio os 33 mineiros que hão-de fazer uma tournée pela Europa, logo Costinha se apressou a responder: «Depende muito da maneira como vierem vestidos, senhor embaixador…»

E, depois de ouvir isto, como se não bastasse, o embaixador chileno ainda teve de assistir ao jogo entre o Sporting e o Rio Ave e às penosas exibições de dois compatriotas seus.
E ainda há quem diga que a carreira diplomática é um luxo.

Com uma prestação europeia francamente medíocre, o Benfica dá mostras de ter atinado finalmente na competição interna e já vai na quarta vitória consecutiva e no quarto jogo sem sofrer golos, o mínimo que se exigia ao campeão depois de um arranque a todos os títulos lamentável.
Maxi Pereira, talvez entusiasmado por este assomo de recuperação, disse no final do jogo com o Portimonense que «este já se parece com o Benfica da época passada». O que, honestamente, não é verdade. É que nem o próprio Maxi se parece com o Maxi da época passada, como concordarão, quanto mais o Benfica no seu todo, tão monocórdico e previsível em todas as fases do jogo.

Depois de o presidente do Sporting ter denunciado os «Herris Batasunas» que andavam a sabotar o seu plano de recuperação do clube, veio agora o presidente do FC Porto queixar-se do «Bin Ladens» que não lhe dão o valor que merece.
Felizmente que o presidente do Benfica não entra nestes temas tão confrangedores quando está irritado.

Leonor Pinhão, 28 de Outubro in Jornal A Bola

Jorge Jesus aprovou viagem a Angola




Jorge Jesus aprovou a deslocação do Benfica a Angola (10 de Novembro), por ocasião do 35º aniversário da independência da antiga colónia portuguesa, que se assinala no dia a seguir à partida. 

Há dois meses que o treinador sabia da participação da equipa no jogo frente à selecção angolana e, mais ainda, terá concordado que 10 de Novembro era a única ‘janela’ possível para a realização de um jogo amigável, com a utilização das principais estrelas do plantel sénior. 

O jogo com a selecção angolana, em Luanda, vai render à SAD o dobro do cachê habitualmente cobrado por cada partida de carácter particular. Em vez dos 250 mil euros que costumam receber, o Benfica vai encaixar desta vez um valor a rondar os 500 mil euros.


E os dividendos desportivos?

Será que os vai ter?






Crónicas de João Gobern




Novembro de Risco

Pouco ou nada adianta, passadas todas estas semanas sobre o início das competições, continuar a chorar a perda de Di María e de Ramires. De pouco vale o regozijo pela “ressurreição” de Roberto, que voou em linha direta de carrasco a herói. E já pouco dizem, a adversários como a adeptos, algumas bravatas extemporâneas do treinador do Benfica que, na presente época, parece ter o condão de encher o peito antes das partidas em que a equipa parece um imenso vazio (FC Porto na Supertaça, Schalke e Lyon na Liga dos Campeões). Sejamos honestos: por razões de estrutura ou de elenco, de conjuntura ou de atitude – cada um escolherá as suas favoritas, por mim não me custa juntá-las todas –, este Benfica ainda não trouxe de volta o espetáculo nem a eficácia com que brindou todos os espectadores na última temporada.

É verdade que foi muito afetado por uma inexplicável “falsa partida” (derrotas com a Académica, o Nacional, o Vitória de Guimarães), depois de uma pré-época quase em pleno. Mas quando se fala de recuperação, é preciso saber ver: dos quatro triunfos consecutivos nas últimas rondas, as três vitórias mais recentes foram obtidas pela margem mínima. E, pelo meio, sem que nada o fizesse prever, o duplo deslize na Champions passou, de forma sólida, a imagem de uma equipa com oscilações de humor, com atletas decisivos à procura de sacudir o marasmo, com uma margem de erro que Jesus parecia ter erradicado há um ano. Convoco, mais uma vez, os números: o FC Porto de Villas-Boas (que só os mais desatentos ou facciosos podem teimar em não levar a sério e que já junta os aplausos aos resultados) tem tantos pontos de diferença para o segundo como os que se registam entre este e o… décimo segundo classificado.

Quer isto dizer que, em novembro e em três provas distintas, o Benfica não tem margem de erro. Na Liga dos Campeões, ao receber o Lyon e ao deslocar-se a Israel, só interessam dois triunfos. Tudo o resto será comprometedor para quem se assumiu “aspirante” na prova milionária. Na Taça de Portugal, idem, por ser a eliminar e porque o adversário se chama Braga. Na Liga, porque uma derrota no Dragão é – admita-se – sinónimo da entrega do título, a seis meses do final do campeonato. Ou alguém acredita que, embalado e com dez pontos de avanço, este FC Porto vai desatar a tropeçar daí em diante?

Éfácil perceber que o Benfica precisa de estabilidade, dispensando guerrilhas (sem prejuízo dos princípios), e necessita de aparecer (e comparecer) com mais alma e mais calma. As grandes batalhas estão aí à porta e não vão dar segundas oportunidades. Sobretudo a uma máquina com a dimensão do Benfica, com contas e receitas, que não pode gastar meio ano a ver passar os navios. 


João Gobern in Jornal Record

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