Na noite da passada segunda-feira, o simpático jogador uruguaio Jorge
Fucile fez ao FC Porto em Guimarães precisamente a mesma coisa que umas
semanas antes, no mesmo recinto, o árbitro Olegário Benquerença fizera
ao Benfica.
Para quem ande distraído ou sofra de compreensão lenta, talvez seja
necessário explicar melhor a ideia expressa no parágrafo anterior.
Tal como Olegário Benquerença, de apito na boca, enterrou o Benfica,
na 4.ª jornada do campeonato, sonegando pontos aos campeões nacionais,
Jorge Fucile, à 7.ª jornada, enterrou o FC Porto, que é a sua equipa,
com uma exibição deplorável: numa desatenção sua nasceu o golo do
Vitória de Guimarães, terminou o jogo mais cedo do que os companheiros
porque foi expulso, e muito bem expulso, acrescente-se.
Fucile, ainda na primeira parte, rubricou ainda um outro momento que
poderia ser fatal se o árbitro, Carlos Xistra, não tivesse deixado
passar em claro a falta sobre um atacante adversário que cometeu dentro
da sua área e que não foi sancionada com a grande penalidade que consta
das leis do jogo tal como as conhecemos.
Tal como já lhe tinha acontecido na temporada passada, em Londres, no
jogo com o Arsenal para a Liga dos Campeões, Fucile teve em Guimarães
uma noite que gostará de esquecer porque foi altamente penalizadora para
o seu clube.
Entre alguns benfiquistas mais versados no tema conspirativo das
arbitragens, até há quem sugira que a expulsão de Fucile foi uma encomenda gritada do banco do FC Porto para o sempre obediente Carlos Xistra.
Qualquer coisa assim:
- Expulsa-nos lá o Fucile antes que ele dê mais cabo da equipa!
O que explicaria o momento dramático furioso de André Villas Boas, no
fundo um grande canastrão, gritando junto à linha lateral a sua falsa
revolta pela expulsão que tinha pedido. Ou seja, era para disfarçar.
Mas a coisa saiu-lhe mal porque o actor, como já referimos, também
não é grande espingarda e o próprio árbitro acabou por se sentir
incomodado coma péssima representação do moranguito que é como por aqui se chamam aos actores que estão em início de carreira.
Carlos Xistra, antes de lhe mostrar o cartão vermelho, ainda lhe recomendou:
- Menos, André, menos…
Mas foi em vão.
Também há quem defenda uma ideia contrária. É que não foi nada para
disfarçar. André Villas Boas foi expulso para imitar José Mourinho, sua
referência de palco. O problema aqui é que não é José Mourinho quem
quer, só é José Mourinho quem pode, como o próprio, aliás, tão bem vem
demonstrando ao longo de dez anos de carreira.
Depois enfim, aconteceu o que já se sabe.
O moranguito induziu-se por sua alta recreação num monólogo
desastrado, clamou por imagens que lhe dessem razão, prometeu
arrependimento público no caso de estar enganado e acabou sozinho em
palco a meter os pés pelas mãos num ror de petulâncias que José Mourinho
jamais assinaria porque ninguém o imagina a expor-se, assim, ao
ridículo de ter de se desmentir a si próprio.
O desvario cénico por um empatezinho, para o qual o árbitro não foi
tido nem achado, não acrescenta louros ao brasão de um treinador que
segue isolado no comando da tabela com 7 pontos de avanço sobre os seus
mais directos perseguidores e que ainda não perdeu um jogo oficial na
corrente temporada.
Mas se não sabemos ainda se André Villas Boas tem mau perder, já é um dado adquirido que tem péssimo empatar.
Quanto às suas queixas sobre dois fora-de-jogo mal assinalados ao
ataque portista, a que se juntou a voz sempre autorizada, quando se fala
de árbitros, de Pinto da Costa, é o caso para lhe dizer:
- Peçam lá para repetir o jogo!
Comemorou-se o centenário da República e um novo pacote de escutas do
processo Apito Dourado foi disponibilizado no Youtube certamente com o
intuito de acrescentar algum brilho cívico à efeméride.
O inevitável constrangimento de alguns opinantes leva-os a indignar-se muito com o assunto.
E, em nome da nossa República, da democracia que é de todos e das
boas maneiras, que nem todos têm, reclamam um silêncio total sobre esse
material não só porque é «ilegal» como também porque é feio escutar as
conversas dos outros.
Discordo da argumentação. É muito importante para o triunfo dos
ideais republicanos sobre a chafurda reinante tomar o povo conhecimento,
por exemplo, da escuta do «nosso amigo juiz». Já ouviram?
Então vão ouvir como é que um juiz de um tribunal civil, trata como
«o nosso amigo juiz», depois de passar uma manhã a ajuizar sobre uma
questão que diz directamente respeito a um clube de futebol, finda a
sessão pede, republicanamente, dois convites para ir ver a bola com o
filho na tribuna presidencial de estádio do dito clube.
Liberdade, Igualdade, Fraternidade.
Principalmente uma grande fraternidade.
CARLOS Martins foi chamado à Selecção Nacional por Paulo Bento,
treinador com quem teve alguns conflitos quando ambos eram funcionários
do Sporting.
As razões desses conflitos nunca foram bem conhecidas mas, se fosse
hoje, com o código Costinha para vestuário e comportamentos já em vigor,
certamente que não teriam acontecido porque quer Paulo Bento quer
Carlos Martins só teriam a lucrar humana e profissionalmente com os
ensinamentos e ditames do actual director do Sporting, tal como já estão
a lucrar os jogadores que compõem o actual plantel de Alvalade.
Mas, para Paulo Bento e Martins, os tempos já são outros. E Carlos
Martins merece, sem dúvida, a confiança de Paulo Bento porque está a
jogar que é uma maravilha. É até estranho como é que um jogador com esta
qualidade, que foi criado nas escolas de Sporting, está hoje ao serviço
do Benfica…
Enfim, foi um que escapou para o clube rival ao contrário de alguns
outros, também de excelente dimensão, que de Alvalade rumaram
alegremente para um clube amigo, como Ricardo Quaresma, Varela e, mais
recentemente, João Moutinho. Com certeza que são rapazes que não se
vestem bem.
Leonor Pinhão 7 de Outubro de 2010 in Jornal A Bola
