sábado, 2 de outubro de 2010

Crónicas Ricardo Araújo Pereira



«A Bola tem três cronistas portistas — o Francisco José Viegas, o Rui Moreira e eu próprio. E, fora os da casa, tem três benfiquistas: o RAP, o Sílvio Cervan e a Leonor Pinhão. Nós, os três portistas, todos aqui escrevemos que (apesar do túnel da verdade, de quase metade dos jogos terminados com superioridade numérica e tudo o resto), o campeonato do ano passado ganho pelo Benfica foi inteiramente justo, porque jogou o melhor futebol. (...) Mas alguém já viu algum dos cronistas benfiquistas reconhecer mérito (...) a uma vitória do FC Porto (...)? »
Miguel Sousa Tavares, 28 de Setembro de 2010

«Durante muito tempo, achei (…) que, com túnel ou sem túnel, o Benfica merecia ganhar este campeonato, porque era a equipa que melhor jogava (...). Mas a verdade é que um campeonato não são 15, nem 20, nem 25 jornadas: são 30 e o saldo final deve-se fazer às 30. E, no último terço do campeonato, desapareceu aquele Benfica que jogava mais e melhor» 
Miguel Sousa Tavares, 11 de Maio de 2010

«O Fernando Guerra pode, pois, tomar nota desde já: dificilmente os portistas e os bracarenses irão reconhecer o mérito de um campeonato ganho pelo Benfica nestas circunstancias»
Miguel Sousa Tavares, 16 de Fevereiro de 2010

Não tenho outro remédio senão admitir que Miguel Sousa Tavares tem sempre razão. Ter sempre razão não é fácil, e MST consegue-o da maneira mais trabalhosa. MST não tem sempre razão por conseguir exprimir constantemente a opinião mais correcta, mas sim por exprimir uma grande variedade de opiniões sobre o mesmo assunto. Nisto das convicções, MST joga com múltiplas. Acerca do último campeonato, às segundas, quartas e sextas reconhece o mérito do Benfica; às terças, quintas e sábados assegura que o Benfica não teve mérito nenhum. Aos domingos, provavelmente, descansa a espinha dorsal, que deve chegar dorida ao fim-de-semana. No entanto, mais notável do que a capacidade para estar sempre certo é o talento para manter a mesma superioridade moral quando diz uma coisa e o seu rigoroso inverso. É muito raro uma trampolinice ser eticamente irrepreensível, mas para MST não há impossíveis. Nos dias em que garante que os portistas são os únicos que reconhecem o mérito dos adversários, MST tem a superioridade moral dos que aceitam a derrota com desportivismo; nos dias em que exige que fique registado que os portistas nunca reconhecerão o mérito dos adversários, tem a superioridade moral dos que não pactuam com fraudes. Quanto a mim, é evidente que não possuo arcaboiço para competir neste campeonato de moralidade com MST — quer com o que tem a nobreza de reconhecer méritos, quer com o que tem a dignidade de não reconhecer méritos nenhuns. Só posso prometer que, se o presidente do Benfica for apanhado em escutas a indicar o caminho para sua casa a um árbitro nas vésperas de um jogo, a Leonor Pinhão, o Sílvio Cervan e eu viremos aqui escrever que esse tipo de conduta nos envergonha. E daremos razão a todos os adversários que não reconhecerem mérito a títulos conquistados à custa desse modelo de dirigismo desportivo. É pouco, mas é o que tenho para oferecer.

«Realmente. Luis Filipe Vieira e Ricardo Araújo Pereira têm razão: o Hulk é uma banalidade. Deve ser por isso que tão empenhadamente manobraram para o tirar de jogo»
Miguel Sousa Tavares, 28 de Setembro de 2010

Como se não fizesse já demasiado, MST ainda tem a simpatia de ser meu arquivista. E dos mais competentes: tanto colecciona o que vou dizendo, como também arquiva o que nunca disse. Na verdade, eu nunca disse que o Givanildo era banal. Posso ter tido o atrevimento de pensar, como o seleccionador do Brasil, que não é inigualável. Talvez tenha a insolência de acreditar como, aparentemente, a generalidade do mercado —, que não vale 100 milhões de euros. Mas, no que diz respeito a críticas, nunca fui tão violento como o vigilante Rui Moreira, que ainda há um ano escrevia: «Hulk (...) não sabe jogar de costas para a área (...). Além disso, parece ter entendido mal os recados do treinador e o mais que dele se viu foi que se entreteve a adornar as jogadas, a tentar “quaresmices” e a simular faltas.» Nunca fui tão acintoso como o mesmo Rui Moreira, que dois meses depois acrescentou: «Gostei de ver Hulk sentado no banco. (...) talvez lhe devessem ter explicado que fora preterido por causa dos seus tiques e individualismo, das suas inócuas simulações. Talvez assim tivesse optado por uma outra atitude, logo que surgisse a oportunidade de jogar. Em vez disso, e como tem sido costume, Hulk foi de pequena utilidade quando entrou.» E nunca disse que, na época passada, as prestações do Givanildo estavam «a léguas do desempenho do ano anterior», como escreveu aqui MST escassos 40 dias antes de o jogador, talvez por causa do fraco desempenho futebolístico, ter resolvido dedicar-se ao pugilismo.

Por outro lado, sou dolorosamente forçado a reconhecer que MST me desmascarou quando revela que, em conluio com o presidente do Benfica, eu «manobrei empenhadamente para tirar o Givanildo de jogo». Normalmente, as teorias da conspiração consistem em palermices mais ou menos lunáticas, sem qualquer sustentação em provas. Não é o caso desta. A pujança da minha influência no futebol português é bem conhecida. As conversas conspiratórias que mantenho com Luís Filipe Vieira estão amplamente documentadas no You-Tube. MST e Rui Moreira ainda tentaram enganar-me, escrevendo várias vezes que o rendimento do Givanildo era pobre, para que eu fosse levado a pensar que o jogador não era assim tão fundamental na manobra da equipa do Porto, na época transacta. Mas a mim ninguém passa a perna, e foi precisamente o Givanildo que eu escolhi para tirar de jogo através das minhas maquinações. Confesso: o castigo do Givanildo foi ideia minha. Por absoluta falta de espaço, deixo para a semana a confissão do meu envolvimento na morte do Kennedy.
Ricardo Araújo Pereira, 2 de Outubro de 2010 in jornal A Bola

Crónicas Leonor Pinhão

«O senhor, na Funerária, vira à esquerda» ou como no GPS Dourado não há túneis


O presidente do FC Porto disse esta semana que ao FC Porto «só falta o título dos túneis». É capaz de ter razão porque no caminho que levou o árbitro Augusto Duarte até sua casa, na Madalena, com as indicações preciosas e precisas que Pinto da Costa foi prestando ao condutor do veículo, qual GPS Dourado, nunca houve que passar em nenhum túnel.
Bendita seja a Madalena que não tem túneis, que alimentem suposições estéreis!
Mas se não tem túneis, pois tem rotundas. E por lá passaram. «Na rotunda, vem para baixo», disse.
E também tem edifício dos CTT. «Vai passar por uns correios» e «na rua larga vira à esquerda». Então tem correios e também tem uma rua larga e não tem sequer um mísero túnel?
E também passaram por outros lugares bem identificados pela voz monocórdica como convém ao GPS Dourado disponível no youtube para todos os automobilistas que não acreditem que não há túneis na Madalena.
«Tem uma escola do lado direito», «o senhor na Funerária, vira à esquerda», «vai passar nuns columbófilos», «vira à esquerda, sempre para baixo», «passa o Orfeão», «passa a Junta de Freguesia da Madalena», «a clínica dentária», «na rua larga vira à esquerda», «vai passar no Clube da Madalena», «tem uma tabuleta que diz Porto», «passa o estaleiro», «sempre para baixo, sempre para baixo», «tem uma seta que diz praia» até chegar «a uma casa iluminada» …
Incrível, não é? E nem um único túnel!
E, pronto, está explicada a razão que impediu o FC Porto de arrebatar o título dos túneis. Também não lhe faz falta nenhuma.
Eu, por exemplo, dispensaria bem o regozijo se visse o meu clube a ganhar o maldito campeonato das suposições estéreis numa enfiada de títulos, como o título da fruta, o título do café com leite, o título das viagens ao Brasil, o título do sprint de José Pratas, o título do marfim, o título do chefe da caixa, o título dos quinhentinhos…


O facto de não terem acontecido condenações no processo que ficou conhecido como Apito Dourado poderá explicar o actual regabofe no sector da arbitragem. É natural, é humana, e até pode ser subconsciente em alguns casos, esta pândega que não é mais do que a celebração do triunfo do estatuto de impunidade avalizado pelos tribunais civis.
E este, sendo o primeiro campeonato que se disputa depois do coro de absolvições de dirigentes e árbitros reputadamente promíscuos nas suas relações, não podia deixar de ser um campeonato muito, mas mesmo muito especial.
Pois se ninguém, foi de cana, o que era impensável, e nem uma simples irradiação desportiva emanou de tanta matéria de prova, como impedir este fartar de folia que tem vindo a marcar as primeiras jornadas da nossa Liga e que já obrigou o próprio Vítor Pereira, presidente do sector, a vir a terreiro meter os pés pelas mãos, que foi, precisamente, o que fez o árbitro Bruno Paixão, na ilha da Madeira, quando viu Rolando, o central portista, meter as mãos pelos pés na sua área?
Estes velhos protagonistas, dado que o tempo é de justificada descompressão judicial, dão-se a luxos que os põem a jeito das interpretações mais torpes.
Noticiada por um jornal generalista e até hoje ainda não desmentida por nenhum dos presentes, a madrugada de convívio de Bruno Paixão com Lourenço Pinto, presidente da Associação de Futebol do Porto, e com José António Pinto de Sousa, ex-presidente absolvido do Conselho de Arbitragem da FPF, no bar de um hotel de Lisboa, depois de consumada a discutida arbitragem de Paixão no Nacional - FC Porto, só poderá fazer adivinhar, além da bonomia geral, uma próxima homenagem pública da AF Porto a Bruno Paixão, na sequência de idêntico preito em oportuna hora prestado a Olegário Benquerença.
Lamentavelmente, nunca a opinião pública conhecerá o teor dos diálogos entre Bruno Paixão, Lourenço Pinto e Pinto de Sousa visto que os tempos da perseguição policial e das escutas ilegais estão mortos e enterrados e não é de crer que, estando todos juntos na mesma assoalhada, tenham falado pelo telemóvel uns com os outros.
É assim a vida. Se há conversas que ficam legitimamente entre quem as conversou, outras há que nascem para saltar para a praça pública com a naturalidade das coisas naturais.
Por exemplo, no sábado passado, Olegário Benquerença que ficou de fora do calendário desportivo do fim-de-semana por razões sanitárias, aproveitou a mais do que merecida folga para receber uma nova homenagem. Sim, porque não há maior homenagem do que o desafio de ensinar os mais jovens a trilhar os bons caminhos de uma profissão, de um mister, de uma carreira.
Olegário Benquerença, na sua qualidade de émulo, ou seja, de modelo a seguir, a igualar ou a superar, respondeu afirmativamente ao convite do Encontro Nacional do Árbitro Jovem, organizado em Rio Maior pela Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol e foi dar uma lição a 60 árbitros com idades compreendidas entre os 14 e os 18 anos.
Como seria de esperar numa iniciativa pedagógica do género, as incidências do seu trabalho no último Vitória de Guimarães - Benfica mereceram a curiosidade da juvenil plateia de educandos que questionaram o educador sobre as sequelas desse seu estrondoso sucesso. O mestre, num incentivo claro à formação de herdeiros que não temam protestos de ninguém, respondeu: «Esta capacidade só está ao alcance de meia dúzia de predestinados. Não tenho dúvidas de que todos vocês gostariam de ser atacados como eu e os outros colegas porque isso significa que chegaram ao patamar mediático.»
Anda um pai a mandar o filho à escola (de árbitros) para isto.

O próximo Benfica - Braga promete. Mais do que em função do campeonato português, em função dos dois respectivos estampanços europeus desta semana. É verdade que o resultado do Benfica foi menos mau do que o do Sporting de Braga. Mas também é verdade que o Braga vai chegar à Luz com um dia a mais de descanso do que o Benfica. E estas coisas têm a sua importância. O Sporting que, por exemplo, lamentou ter dado tantos dias de descanso ao Benfica antes do derby, vai agora jogar a Aveiro contra o Beira-Mar que tem quase mais uma semana de descanso do que os leões. São as contas…
Leonor Pinhão, 30 de Setembro in Jornal a Bola

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