Mourinho não faz biscates… mas há quem os faça
A BOLA referiu anteontem, com justo destaque, que «desde 1976» não se
via no campeonato português «um arranque tão fabuloso» como o arranque
do FC Porto nesta prova de 2010/11. Cinco vitórias nas cinco primeiras
jornadas e quatro pontos de avanço sobre o segundo classificado, o
Vitória de Guimarães, eis o registo actual do FC Porto que só encontra
paralelo na competição de 1976/1977, com o Sporting, de Jimmy Hagan,
que, à quinta jornada somava o mesmo número de pontos de avanço sobre o
segundo classificado, o Varzim.
Francamente, não me lembro. Passaram-se 34 anos entre as duas proezas
e, sendo o Varzim o segundo classificado no Outono de 1976, nem consigo
imaginar em que lugar da tabela navegava o Benfica. Seria o terceiro?
Ou estaria em oitavo, como está hoje, ou estaria na décima quarta
posição, como estava na semana passada?
Não importa, o que lá vai, lá vai.
O que importa é a classificação final desse campeonato de 1976/1977
que deve ter sofrido uma grande reviravolta a meio do percurso, visto
que o Benfica foi o campeão, acabou no primeiro lugar, com 9 pontos de
avanço sobre o Sporting, o segundo classificado. Quanto ao Varzim,
depois de um arranque não menos espectacular, quedou-se por uma bastante
honrosa sétima posição, a 20 pontos do campeão nacional.
Ao longo da sua história secular, o futebol teve sempre destas reviravoltas surpreendentes.
Ainda no domingo passado, por exemplo, no Estádio da Luz, o paraguaio
Óscar Cardozo que, há menos de quatro dias, tinha sido declarado persona non grata
pela exigente plateia da casa, acabou com as más-línguas despachando,
sozinho, o Sporting com dois golos muito bonitos e que deixaram a
multidão de ingratos ao rubro. Ao rubro, certamente, de corados pela
vergonha recente que é a de assobiar um jogador do Benfica por mais
inapto que seja, o que, ainda por cima, não é o caso.
De acordo com as investigações estatísticas da concorrência, Cardozo é
o avançado mais eficaz do Benfica dos últimos 30 anos. Ou seja, quase
desde aquele campeonato em que o Sporting entrou triunfalmente e o
Benfica acabou por ganhar, não se via na Luz um homem-golo tão produtivo
e regular.
Ainda assim há quem não esteja satisfeito. Ouvi, na noite de domingo, censurá-lo por não ter feito um hat-trik que ‘estava perfeitamente ao seu alcance’. Ora isto é dar importância de menos ao Cardozo…
Entre os assobiadores arrependidos, também ouvi censurar Jorge Jesus
por não ter tirado Cardozo a cinco minutos do fim ‘para receber os
aplausos da concórdia’. Gente com remorsos tem sempre tendência para
efeitos dramáticos espectaculares…
Fez bem Jorge Jesus em ter deixado Óscar Cardozo em campo até ao fim
do jogo. Quem sabe se não fazia mais um biscate e marcava mesmo o
terceiro golo… por causa das dúvidas.
PAULO BENTO é o novo seleccionador e, lamentavelmente para ele e para
o bom nome da Federação Portuguesa de Futebol e da Selecção Nacional,
não entrou pela porta grande como devia e como mereceria qualquer
técnico convidado a desempenhar um cargo de tamanha responsabilidade.
Imagine-se uma situação em que um indivíduo, depois de passar meia
hora a contar anedotas parvas, resolve pôr-se com conversas responsáveis
e profundas. Torna-se difícil levar a sério semelhante polivalência de
reportório, não concordam?
E é este, precisamente, o óbice que marca a entrada do novo
seleccionador ao serviço da FPF. Paulo Bento, inocente, vê-se na posição
do assunto sério que chega depois da anedota parva e que vai ter de
carregar o fardo da risota para o qual não contribuiu e que, certamente,
dispensava.
A expedição da FPF a Madrid para contratar José Mourinho para os
próximos dois jogos da Selecção Nacional foi a anedota, como já terão
adivinhado. Mourinho e o Real Madrid foram os protagonistas forçados da
laracha e lá se desenvencilharam, sem perder a compostura, o que deve
ter sido difícil, dos rogos da patriótica comitiva lusitana que foi
pedinchar ao melhor treinador do mundo e ao clube mais poderoso do mundo
uma atençãozinha, em part-time, em favor da malta desnorteada da ponta ocidental da Ibéria.
A imprensa espanhola foi bastante impiedosa com a anedota portuguesa e
tratou o assunto abaixo dos malucos do riso, não era para menos. Não há
pãp para malucos, foi só o que lhes faltou dizer e escrever.
O pormenor do convite a José Mourinho ser só para os dois próximos
jogos, já neste Outubro, com a Dinamarca e com a Islândia, pode, no
entanto, ser passível de várias interpretações. Umas de foro do
calculismo frio e mais racional.
Como é do conhecimento do público em geral, Gilberto Madaíl despediu
Carlos Queiroz e, aparentemente, despediu-se também a si próprio,
anunciando a convocação de eleições para os órgãos sociais da FPF. Seria
da máxima conveniência para a actual Direcção da FPF uma recandidatura
engalanada com a bandeira de José Mourinho, mesmo em regime de biscate,
até porque, depois dos dois jogos de Outubro, a selecção só voltará ao
trabalho a sério no mês de Junho de 2011, recebendo a Noruega em jogo do
Grupo H de qualificação para o Europeu de 2012.
Felizmente, Mourinho não faz biscates. Boa sorte, Paulo Bento. E muita, muita paciência.
NO domingo, enquanto a Luz e o País inteiro se preparavam com furor
para mais um clássico, jogou-se por todo o País, discretamente, a
segunda eliminatória da Taça de Portugal em que se viram envolvidas
apenas equipas das divisões secundárias. Um jogo houve que nos disse
respeito. O Centro Desportivo de Fátima, jogando em casa, eliminou o
Clube Oriental de Lisboa, por 2-1. E disse-nos respeito porquê? Questão
efectiva, obviamente.
Frente a frente, na qualidade de treinadores principais,
encontraram-se Diamantino e Carlos Manuel que, na década de 80 do século
passado, juntos e ao vivo fizeram vibrar o terceiro anel, o segundo
anel e o primeiro anel. E isto é dizer muito como compreenderão. O
resultado final, para o caso, tanto faz. Ganhou o Diamantino ao Carlos
Manuel, para os que se interessam por essas coisas. Por mim, ganhavam os
dois. Viva o grupo do Barreiro!
PS: A ‘Operação Vindima’ continua, o que não surpreende porque
estamos no Outono, tempo de encher os lagares para garantir um Inverno
tranquilo. Até o bom do Rolando ficou chocado. Maior do que a sua
desfaçatez de jogar a bola à mão dentro da sua área, foi a desfaçatez do
grande Bruno Paixão que mandou seguir para bingo. Enganou-se. Sou pelo
profissionalismo total dos árbitros no futebol profissional. Isto de
andarem a fazer biscates ao fim-de-semana tem de acabar.
Leonor Pinhão, 23 de Setembro in Jornal A Bola
