Um protesto sem vigílias não é um protesto
O comunicado emitido pela
direcção do Benfica teve, até ver, pelo menos um grande mérito: causou igual
desagrado a portistas e sportinguistas (passe o pleonasmo). Os portistas até
apreciam comunicados, mas só se forem lidos pelo terceiro guarda-redes. Gostam
de queixas sobre a arbitragem, mas só se forem feitas ainda na pré-época, como
fez Villas Boas no torneio de Paris. E levam a mal que uma iniciativa destas
não inclua uma comovente vigília previamente anunciada na TV. Organizar
romarias à sede da Liga para repudiar o castigo aplicado a um inocente que se
limitou a participar num espancamento é pugnar pela justiça e pela verdade;
lamentar a existência de vários erros graves de arbitragem é uma palermice
folclórica.
Quanto aos sportinguistas,
preferem tomadas de posição mais funéreas como um luto, por exemplo.
Comunicados são, para eles, queixinhas.
Queixinhas essas que podem eventualmente vir a prejudicá-los,
pelo que, após aturada reflexão, decidiram fazer queixinhas das queixinhas do
Benfica, inaugurando assim as queixinhas por antecipação. Queixinhas
preventivas e dignas, que antecipam factos hipotéticos, e que contrastam
flagrantemente com as queixinhas condenáveis, que são as que se referem a factos
consumados e comprovados. Donde se conclui que o Benfica foi prejudicado em
Guimarães para seu próprio benefício, e para grave prejuízo do Sporting. Só não
vê quem não quer.
A homenagem da Associação de Futebol do Porto
a Olegário Benquerença gerou uma comoção que não pode deixar de se considerar
admirável. Fico sempre impressionado com as pessoas que ainda conseguem
surpreender-se com o futebol português. Se é absolutamente normal que um
árbitro visite a casa do presidente do Porto («Sempre em frente!») nas vésperas
de arbitrar um jogo do mesmo clube, porque haveria de ser menos normal que um
árbitro de Leiria fosse homenageado pela Associação de Futebol do Porto nas
vésperas de dirigir um jogo do Benfica e mais de dois meses depois das
extraordinárias façanhas merecedoras da homenagem? Ambas as situações foram
explicadas tão convincentemente que só poderiam deixar dúvidas em espíritos
menos puros.
O árbitro Augusto Duarte buscava
aconselhamento matrimonial para o papá, e foi por isso que quis escutar a
opinião ponderada de um homem cujo talento para manter matrimónios estáveis e
discretos é publicamente conhecido e aclamado.
A Associação de Futebol do Porto
quis homenagear Olegário Benquerença, natural de Leiria, porque os seus
auxiliares são portuenses. No fundo, o procedimento habitual nestes casos.
Quem não se lembra da linda homenagem que a Associação de Futebol
de Beja prestou a Carlos Valente, que esteve no Mundial de 1990 com um
assistente que tinha uma vizinha que era alentejana? Ou a festa de arromba que
a Associação de Futebol da Guarda organizou em honra de Vítor Pereira, presente
no mundial de 1998, e que na altura era dono de um cão de raça Serra da
Estrela, o que muito orgulhou os organismos do futebol da região?
Jorge Costa prossegue a sua magnífica recuperação da
Académica, que se encontra neste momento em terceiro lugar, bem longe do triste
11º posto em que terminou no ano passado. Com um plantel praticamente idêntico
ao da época anterior, o novo treinador dos estudantes - que, recorde-se, nunca
redigiu relatórios para Mourinho -, insiste em fazer melhor que o seu
antecessor. Uma impertinência que lhe pode sair cara.
Ricardo Araújo Pereira, 11 de Setembro in Jornal A Bola
