Um produto altamente contagioso
O futebol
é um produto altamente contagioso. E só por inépcia mental alguém
poderia acreditar que o arraial montado entre a direcção da FPF e o
seleccionador nacional não haveria de ter consequências directas e
nefastas na produção da equipa nacional.
Lamentavelmente, dos ineptos reza a História.
Na
semana passada, a Federação Francesa de Futebol despediu formalmente
Raymond Domenech, que foi o treinador e seleccionador da França até ao
Mundial de 2010 e que, mal aterrou em Paris, viu-se despromovido para
um cargo menor na assessoria técnica da FFF.
Os
responsáveis federativos franceses não demoraram quase nada a retirar a
selecção das mãos de Domenech mas precisaram de dois meses, e de um
novo presidente, para afastar definitivamente Domenech estrutura da
FFF.
O
diferendo segue agora para os tribunais que decidirão se Domenech tem
ou não direito a receber a indemnização de 500 mil euros que reclama
aos seus antigos patrões. Normalmente, é como as coisas acontecem
quando o ambiente se torna insuportável entre duas partes.
De
notável, em comparação com a realidade portuguesa, há apenas a realçar
que nem o presidente da Federação, Jean Pierre Cavalettes, nem o
seleccionador Domenech, estão já em funções e que, com esta atitude, a
nova direcção da Federação Francesa não se poupa a um diferendo judicial
com o ex-seleccionador, que se estima longo e aborrecido.
Mas
poupou, e de que maneira, a sua equipa nacional e, também, os milhões
de adeptos dos bleues ao lamentável desfile das incompetências
múltiplas e dos rancores sem remédio que, por exemplo, neste momento,
germinam como urtigas no baldio em que se transformou o dia-a-dia da
selecção portuguesa.
A FFF
comunicou por carta a Domenech o seu despedimento e apontou-lhe, por
escrito, «três falhas graves», sendo que nenhuma é de carácter técnico e
que as três se prendem com questões do carácter do ex-seleccionador.
O
seu envolvimento na expulsão de Anelka do grupo, a forma como reagiu à
greve dos futebolistas e, finalmente, o facto de se ter recusado a
apertar a mão a Carlos Alberto Parreira, no final do França - África do
Sul, num flagrante mundial de péssima educação, são as «falhas» que a
Federação Francesa de Futebol registou no comportamento de Domenech no
decorrer do Mundial e que justificaram a carta de despedimento que lhe
foi enviada.
A
França que, tal como Portugal, começou mal a sua campanha para o
Euro-2012, tem apenas de se mostrar preocupada com os jogos e com os
adversários que há-de ter pela frente. Enfim, com os pormenores dentro
das quatro linhas, visto que resolveu, com a celeridade adequada, a
questão fulcral da substituição das suas autoridades federativas e
técnicas.
Trata-se,
sempre, de uma questão de autoridade. Que é, precisamente, o que falta
hoje à equipa nacional portuguesa que não tem seleccionador e que não
teve, nem em Guimarães nem em Oslo, presidente da Federação, retido em
Lisboa por motivos de saúde de que ninguém tem o direito de duvidar e
que toda a gente tem o dever intelectual de considerar como muitíssimo
convenientes.
O
poder da FPF emana das Associações distritais e o poder das Associações
emana dos clubes emana dos seus dirigentes… ou seja. Gilberto Madaíl e
a direcção da FPF não são objectos estranhos desta constelação
imortal.
Por
razões diversas, os presidentes do Benfica e do FC Porto dispuseram-se
a testemunhar em favor de Carlos Queiroz desvalorizando a reacção
grosseira do seleccionador à visita da brigada antidoping.
Luís
Filipe Vieira e Pinto da Costa saberão os motivos particulares que os
assistem mas, na actual conjuntura, torna-se difícil resistir a citar
um exemplo antigo de um antigo presidente do Benfica, Joaquim Ferreira
Bogalho.
Há
mais de meio século, a selecção portuguesa perdeu na Áustria, por 9-1,
um jogo de qualificação para o Mundial de 1950, e no regresso a
Lisboa, depois da humilhante goleada, a Federação Portuguesa de Futebol
suspendeu e multou dois jogadores do Benfica – Félix e Ângelo -,
acusando-os de «comportamento incorrecto» por terem chegado atrasados ao
autocarro e por não se terem comportado de acordo com as regras no
hotel vienense. Ainda há bem pouco tempo A BOLA recordou este episódio e
vale a pena voltar a ele: «Joaquim Ferreira Bogalho, presidente do
Benfica, achou que as multas da FPF eram pouco e dobrou-as. Ao sabê-lo,
Félix, considerado um dos melhores médios-centro da Europa, despiu a
camisola do Benfica e atirou-a ao chão. Descalçou as botas, lançou-as ao
ar, praguejou. E do Benfica foi suspenso para sempre.»
Está tudo dito. Era outra educação.
Depois
de André Villas Boas ter afirmado que não sente a falta de Raul
Meireles porque, no FC Porto, «há quem tenha melhor para oferecer»,
veio Nuno Santos, director de programação da SIC, que perdeu a
apresentadora Fátima Lopes para a TVI, dizer que «a Fátima não faz
falta». O futebol é um produto altamente contagioso, não duvidem.
Eduardo
foi extraordinariamente infeliz nos jogos com o Chipre e com a Noruega
e não merecia passar pelo que passou, em Oslo, com o público da casa a
delirar sempre que o guarda-redes português tocava na bola. Aliás,
ninguém merece uma coisa destas…
…Pensando
melhor, talvez os adeptos benfiquistas, que se lastimam há dois meses
por o clube não ter comprado Eduardo em vês de ter comprado Roberto,
tenham merecido uma prova tão cabal e espampanante de que, por vezes,
as coisas correm mal, muito mal, a toda a gente.
A não se que este fenómeno, azares dos guarda-redes, também seja contagioso…
Leonor Pinhão, 9 de Setembro de 2010 in Jornal A BOLA