Agora sem mãos
É a questão que os benfiquistas mais descrentes colocam a si
próprios por estes dias: o Benfica já perdeu o campeonato em Agosto ou os
quatro pontos de atraso para o Braga ainda são recuperáveis? É uma inquietação
legítima, mas temo que o verdadeiro alcance deste início de época não esteja a
ser compreendido por todos.
O problema é este: um
campeonato até Jaime Pacheco ganha. Mas ganhar um campeonato à Benfica, às
vezes nem o Benfica consegue. O último campeonato foi ganho à Benfica. Com
grandes exibições, goleadas, enfrentando o melhor Braga de sempre e um Porto
orientado por um treinador tricampeão. Este ano parece-me que faltava alguma
motivação. O Braga, desfalcado e empenhado nas competições europeias, aparenta
estar menos capaz de suportar uma prova tão longa, e o Porto passou a ser
treinado pelo Mourinho de pechisbeque. Era óbvio que o Benfica precisava de um
desafio. Daquela emoção que o artista do poço da morte procura quando grita:
«Agora mais difícil: sem mãos!» Que se passou, desde há três meses? Jesus é o
mesmo. Os jogadores também, quase todos. O que equivale a dizer que o poço é o
mesmo e a mota também. Um aborrecimento. As cabriolas do ano passado já não nos
impressionariam. Era altura de gritar: «Agora mais difícil: sem vitórias até 28
de Agosto!» O campeonato começa hoje, meus amigos.
“ (…) se, como eu prevejo,
o Braga, ficando em segundo lugar, não sobrevive às eliminatórias da Champions,
isso significa que o Benfica faz sua toda a receita dos direitos televisivos,
sem ter de a dividir a meias com outro clube português participante na
competição. Há que estar atento, Sr. Vítor Pereira”
Miguel Sousa Tavares, 6 de Abril de 2010
Quando se percebe de
futebol é outra coisa. Há quatro meses, o Braga estava a ser beneficiado pela
arbitragem – o que, surpreendentemente, favorecia o Benfica. O mesmo Braga que
só perdeu o campeonato na última jornada, o mesmo Braga que amealhou pontos
suficientes para ser campeão em vários dos últimos campeonatos, estava a ser
beneficiado para ajudar o clube cujos calcanhares andou a morder até ao fim. O
raciocínio, chamemos-lhe assim, era simples: como, depois de apurado para a
Champions, o Braga não passaria à fase de grupos, o Benfica receberia a
totalidade dos direitos televisivos, perante a passividade do desatento Sr.
Vítor Pereira. Talvez fosse útil a publicação de um manual de instruções para
teorias de conspiração. O primeiro mandamento estipularia: se a teoria não
tiver pés nem cabeça e se basear apenas numa previsão com a pujança
premonitória das do professor Bambo, abandone-a. Aí está uma obra que evitaria
alguns embaraços, uma vez que a realidade se encarregou de demonstrar que, tal
como pensavam todos os que não estavam de má-fé, este Braga ficou em segundo
lugar porque era mesmo superior ao plantel mais caro de sempre do futebol
português. Que o Sporting de Braga seja, então, bem-vindo à Liga dos Campeões,
até porque não é todos os dias que se consegue ver um Sporting nesta
competição.
Ricardo Araújo Pereira, 28 de Agosto in Jornal A Bola

