Até 19 de Setembro, que ninguém se enerve!
NÃO é a
primeira vez nem será, porventura, a última que as circunstâncias me
obrigam a partilhar com os caríssimos leitores algumas noções que me
foram ensinadas na infância pelo meu avô, um grande educador no que diz
respeito ao comportamento minimamente exigível ao mais comum dos
adeptos do Benfica, quer em público quer em privado.
Ora
aprendam, se quiserem, com este episódio ocorrido há muitos, muitos
anos, quando a CUF do Barreiro militava na divisão principal e, pelo
final de uma tarde cinzenta de domingo, o bordo de um barco fervilhante
de indignação, regressávamos os dois a Lisboa depois de uma derrota do
Glorioso no campo da CUF.
A
falange benfiquista lotava o cacilheiro e tal como as águas de Tejo
espelhavam o céu, as conversas, em tom alto e desabrido, espelhavam o
desânimo, a revolta, a intolerância dos passageiros esbaforidos perante o
resultado do jogo.
Sentados
lado a lado, ouvíamos o troar dos debates exaltados e de tal modo que o
barco parecia navegar por vontade própria, abafado que fora pela
barulheira o roncar do motor. O chinfrim, a mim, não me dizia nada.
Naturalmente o que eu queria, naquele instante confuso que precede
todas as crises de fé, era ouvir a opinião do meu avô.
- Foi muito mau perder, não foi? – perguntei-lhe em voz baixa.
-
Quanto mais o Benfica perde mais eu gosto do Benfica – respondeu-me
num tom peremptório e suficientemente alto para que os passageiros mais
próximos o ouvissem e se calassem, momentaneamente embaraçados pela
tirada do ancião que não admitia discussões. Mesmo assim, passado o
pasmo inicial, houve logo quem pretendesse arrastar o meu avô para
concordâncias fáceis.
-
Mas não acha que Fulano não jogou nada? E que Sicrano está gordo? E
que Beltrano não tem categoria para vestir a nossa camisola?
À espera da resposta, cravaram-se no velho uma dúzia de pares de olhos espevitados pela curiosidade que não foi satisfeita.
- Olhe, amigo, para mim dizer mal de qualquer jogador do Benfica é mais feio do que cuspir na sopa.
E
acabou-se ali a conversa. Pelo menos naquele recanto daquele
cacilheiro naquela viagem depois de uma derrota do Glorioso no campo da
CUF do Barreiro.
VEM-ME
esta memória marítima, obviamente, a propósito do arranque oficial da
época de 2010/2011 em que o Benfica já encalhou em três escolhos e o
inesperado da situação tem motivado farta gritaria, tal como acontece
quando o caso é de aflição. E, na verdade, é. O Benfica já perdeu em
duas jornadas desta Liga dois jogos, ou seja, soma em Agosto o mesmo
número de derrotas com que, na temporada passada, chegou ao fim das 30
jornadas, em Maio.
Se
Jorge Jesus fosse um sádico iluminado, restava-lhe agora somar de
rajada os 4 empates contabilizados no campeonato de 2009/2010 e, depois,
com um grande descaramento, abalançar-se a uma série de 24 jornadas
seguidas só com vitórias, repetindo o registo da prova anterior, para
festejar uma vez mais o título no Marquês de Pombal transportando
Roberto Jimenez ao colo.
Lamentavelmente, não será este o cenário mais verosímil…
O
guarda-redes espanhol que chegou ao Benfica para ser uma solução é,
hoje, um problema, e dos grandes, que afecta não só a equipa toda como,
de forma silenciosa e tremenda, está também a afectar a imagem de
autoridade e a pôr em causa a voz do comando de Jorge Jesus. E essa
perda de credibilidade do seu treinador era, justamente, a pior coisa
que podia acontecer ao Benfica, brilhante campeão nacional em título e
mais do que desejoso de repetir a conquista para se reafirmar como
potência interna.
É
que o Benfica não ganha dois títulos nacionais seguidos há um quarto de
século, desde as épocas de 1982/1983 e 1983/1984, ao tempo de
Sven-Goran Eriksson.
Neste
pequeno desastre de arranque – e para já não é mais do que isto -, o
Benfica só se pode queixar de si mesmo porque, atendendo às
circunstâncias, até lhe fica mal chorar-se dos penalties que ficaram por
assinalar no jogo com a Académica e no jogo com o Nacional da Madeira.
Essa,
não é de todo, a conversa de um campeão que deveria ter assumido mais
cedo, muito mais cedo, por princípios de Julho, desde o jogo com o Sion
e daquela chapelada patética, que o dono da baliza não estava
encontrado e que o erro de casting reclamava de correcção imediata e
sem hesitações. São coisas que acontecem e não há que temer resolvê-las
antes que a tempestade num copo de água se transforme num furacão de
proporções assombrosas. E é isso que temos hoje.
A
grande vítima dos azares de Roberto é, sem qualquer espécie de dúvida,
Jorge Jesus, apontado como a força contratadora do jogador e, depois,
perante o avolumar dos lapsos, apontando como a única força que
contrariou o bom senso, apostando no guarda-redes que foi desencantar a
Saragoça e que, ele próprio, Jorge Jesus, reconhecerá com mágoa mas sem
esforço que é hoje a maior anedota do futebol português.
Tudo isto era dispensável, não era?
Eu
dispensava, por exemplo, ter de ouvir as opiniões enternecedoras de
Quique Flores, sugerindo, desde Madrid, «um novo voto de confiança que o
ajudará a concentrar-se», quando o mesmo Quique Flores, na temporada
de 2008/2009, foi bem menos paciente com Quim, afastando-o da equipa
depois de uma curta série de jogos infelizes – goleado por 6 golos pela
selecção do Brasil, por 5 golos pelos gregos do Olympiakos e
protagonista infeliz de um Benfica-Vitória de Setúbal que terminou
empatado, 2-2, e que afastou a equipa da liderança do campeonato.
Enfim… é o que acontece a quem se põe a jeito para ouvir sermões de vozes desautorizadas pela experiência histórica.
Vai
ser difícil o trabalho do sucessor de Roberto, seja ele qual for, na
baliza do Benfica. Mas não será esse facto que impedirá o Benfica de,
rapidamente, se recolocar sobre carris e avançar com confiança para os
seus objectivos ligeiramente embaciados depois do vapor destes
primeiros jogos. O campo de manobra de Jorge Jesus é ainda largo e
basta-lhe cumprir com o que prometeu na pré-temporada para que os ânimos
serenem dentro e fora do balneário. Podem não estar lembrados,
caríssimos leitores, mas o treinador do Benfica avisou bem cedo que só
teria a equipa a jogar como ele gosta e como ele quer lá por meados de
Setembro.
E
basta consultar o calendário… na quinta jornada do campeonato, a 19 de
Setembro, o Benfica receberá, na Luz, o Sporting e será, precisamente,
nessa ocasião que a coisa ou vai ou racha. Até lá, o melhor a fazer é
aguardar sem fazer ondas, não vá o barco entornar-se.
O
Sporting de Braga surpreendeu na eliminatória com o Celtic,
impressionou na eliminatória com o Sevilha, está, portanto, com toda a
justiça, na fase de grupos da Liga dos Campeões. Resta saber como é que a
equipa de Domingos de aguentará em duas competições exigentes, uma
nacional, a outra das portas para fora. Na temporada última, houve quem
visse no facto de o Braga ter sido afastado das lides europeias logo no
Verão, a explicação para uma carreira interna absolutamente incrível
que durou pelo Outono, Inverno e só terminou pelo final da Primavera.
Mas agora não é momento para calculismos deste género. É momento para
dar os parabéns ao Sporting de Braga.
Leonor Pinhão, 26 de Agosto in Jornal A BOLA

