Uma Semana Humilhante
A derrota do Benfica em casa, frente à Académica, não pode deixar de ser
considerada humilhante. Humilhante para o Porto, bem entendido: em tão
pouco tempo e com um plantel muito semelhante, Jorge Costa já está a
fazer melhor do que André Villas-Boas. Quem assistiu, no ano passado, à
derrota da Académica de Villas-Boas no Estádio da Luz por 4-0 constata
sem dificuldades que a Académica de Jorge Costa está muito mais bem
orientada.
Como se a vergonha do fim-de-semana não bastasse, o Porto viria a ser
reincidente na desonra dias depois, perdendo Salvio para o Benfica.
Ciente da dimensão do enxovalho, André Villas-Boas tentou fingir que o
que toda a gente sabia era mentira numa conferência de imprensa em que,
por incrível que pareça, não usou uma vez que fosse a palavra
«exacerbação». Disse o treinador do Porto que, se o seu clube estivesse
interessado em Salvio, o jogador estaria no plantel - uma vez que os
portistas se antecipam ao Benfica nas contratações sempre que o desejam.
Sem querer exacerbar, todos sabemos que tal não é verdade. Se o Porto
conseguisse roubar ao Benfica todos os profissionais que interessam a
ambos os clubes, a esta hora Villas-Boas ainda seria treinador da
Académica.
PAULO SÉRGIO prepara-se para, no espaço de cerca de três meses,
colocar duas equipas fora da Liga Europa. Julgo que estamos perante um
especialista. Primeiro foi o Guimarães, afastado das competições
europeias no último jogo do campeonato pelo Marítimo, e agora é o
Sporting, que está prestes a ser eliminado pelo poderoso Brondby. Na
mesma semana, o treinador do Sporting disse que tinha a melhor equipa do
Mundo e perdeu em Paços de Ferreira, e depois disse que o Sporting era
favorito em todos os jogos e perdeu em Alvalade. Não me surpreende que a
melhor equipa do Mundo perca em Paços de Ferreira. O que acho
verdadeiramente estranho é que Anderson Polga consiga ser titular na
melhor equipa do Mundo.
OUÇO dizer que os jornalistas do Expresso captaram boas declarações
de Pinto da Costa. Não li a entrevista, mas custa-me a crer que sejam
melhores que as declarações que a Judiciária captou e ainda pontificam
no YouTube. Sem querer beliscar o brio profissional dos jornalistas que,
ao longo dos anos, têm entrevistado Pinto da Costa, é apenas justo
referir que meia dúzia de polícias fizeram melhor jornalismo – e sem
precisarem de colocar uma única pergunta. Quando se tem talento…
É impressionante o modo como Carlos Queiroz, um treinador cujas
equipas praticam um futebol tão pouco emocionante, consegue despertar
tantas emoções fora do relvado. Dificilmente se chegará a um consenso a
propósito deste intrincado caso disciplinar. Quem tem razão? Queiroz? A
brigada antidoping? As amostras de urina? É difícil dizer, sobretudo
quando ainda ninguém concorda sobre a prestação de Portugal no
Campeonato do Mundo. Foi boa ou má? É verdade que a Selecção só foi
eliminada pela equipa campeã do Mundo, mas não é menos verdade que
Portugal não consegui marcar um único golo a quartetos defensivos que
não fossem formados por Ji Yun-nam, Ri Kwang-chon, Ri Jun-li e Pak
Chol-jin. Todos os defesas que neste momento não se encontram em campos
de trabalhos forçados revelaram-se intransponíveis para a estratégia
ofensiva portuguesa. Sim, mas seria realista esperar que Portugal
conseguisse a proeza sobre-humana de bater a Espanha? Bom, a Suíça
conseguiu. Digamos que não era propriamente impossível. Creio que o
grande problema da Selecção é que Carlos Queiroz só joga ao ataque nas
entrevistas ao Expresso. No entanto, não sou daqueles que dizem que o
futuro é negro. Se a federação conseguir arranjar maneira de suspender
Queiroz até Agosto de 2012, julgo que Portugal tem boas hipóteses de se
sagrar campeão da Europa.
Ricardo Araújo Pereira, 21 de Agosto in Jornal A Bola
