Carlos Queiróz não tem no seu país um estatuto de ídolo. O que é
estranho porque Queiroz, ainda que uns bons degraus curriculares abaixo
de José Mourinho, trabalhou no estrangeiro com sucesso ao serviço de um
gigante europeu como é o Manchester United.
Em Portugal, há duas décadas, Queiroz levou a selecção nacional de
juniores à conquista de dois títulos mundiais do escalão e este ano, em
2010, na fase final do mundial de seniores, levou a equipa nacional até
aos oitavos-de-final e soçobrou perante a Espanha que haveria de se
sagrar campeã do mundo, o que não é pouco.
No entanto, a FPF está farta de Carlos Queiroz e magicou um modo
desajeitado de se ver livre do seleccionador. Não será coisa de espantar
se Carlos Queiroz fizer vingar o seu contrato e os seus direitos e
acabar por ser ele, o treinador, a despedir o presidente, Gilberto
Madaíl. E não venham depois dizer que nunca viram nada parecido…
Não sendo um ídolo, Carlos Queiroz não arrasta multidões, não tem
lobbies a favor nem contra e o seu destino profissional é mais ou menos
indiferente à grande massa de adeptos portugueses que censurarão mais
facilmente ao treinador a total ausência de brilho da Selecção na África
do Sul do que a fraca “postura verbal” de que é formalmente acusado.
E é este o risco que corre Carlos Queiroz se não for ele próprio a
meter um travão ao aproveitamento que se está a fazer do seu lamentável
caso. É que, pelo andar da carruagem, Queiroz que não é um ídolo dos
amantes do futebol, arrisca tornar-se um ídolo dos amantes da ordinarice
e da violência e, francamente, ninguém merece uma coisa destas.
Carlos Queiroz agrediu um jornalista no Aeroporto de Lisboa e
insultou um funcionário do Estado português, que se limitava a cumprir
com o seu trabalho, em termos de fazer corar as pedras da calçada. Este
currículo de Queiroz dá-lhe uma aura de ídolo e de santidade por todas
as capelas onde bater em jornalistas e falar como um labrego é a
liturgia oficial.
Inevitavelmente, os dois episódios fazem já parte do anedotário
futebolístico nacional e se há coisa de que um seleccionador nacional
não precisa é de entrar como protagonista em anedotas ainda que as
anedotas se esqueçam facilmente até porque, no nosso país, há uma grande
capacidade de renovação de reportórios tantas são as situações com que a
realidade nos bombardeia.
O presidente do FC Porto, por exemplo, apresentou-se na sede da
Federação Portuguesa de Futebol para colaborar na defesa de Carlos
Queiroz. Pinto da Costa considerou o caso «ridículo» e considerou
«normais» as palavras que terão dado origem ao processo disciplinar. E
curvou-se, humildemente, perante a figura respeitável do manager do
Manchester United afirmando: «Vir alguém como o Sir Alex Ferguson de
Inglaterra para testemunhar até se torna preocupante…».
Fica, assim, provado que Pinto da Costa já se esqueceu da melhor
anedota jamais contada por Sir Alex Ferguson que, um certo dia, falou na
competitividade do campeonato português nos seguintes e escorreitos
termos: «O FC Porto está habituado a comprar títulos no supermercado». E
nem lhe foi preciso dizer uma asneirola.
NÃO é comum acontecer mas, pelo menos nesta semana, entre
benfiquistas e portistas regista-se uma espécie de unanimidade de
opinião que é digna de enaltecer. Se o mérito do vencedor da Supertaça
mal se discute, também a eleição do nome do melhor jogador em campo não
oferece, praticamente, motivo para argumentações e contra-argumentações.
Em A veiro, o melhor em campo foi Silvestre Varela, ponto final, parágrafo.
É sempre curioso quando vemos concordar duas multidões rivais
vocacionadas para discordar. E porque é diferente é original e é
saudável.
Menos original e menos saudável é, aparentemente, a posição expressa
em público e em privado por muitos adeptos do Sporting que hesitam em
atribuir o título de melhor em campo a Silvestre Varela visto que também
lhes agradou imenso a exibição de João Moutinho, na sua estreia oficial
pelo FC Porto, no jogo de domingo passado.
Se para uns, Varela foi a gazua que desarticulou as capacidades
defensivas do campeão, para outros foi Moutinho o herói de Aveiro porque
foi ele quem, sozinho conseguiu carregar de cartões amarelos meia
equipa do Benfica, o que também tem o seu valor.
Observando o universo leonino, de fora e de longe, conclui-se que é
uma verdadeira alegria sportinguistas oferecer os seus melhores
jogadores ao FC Porto só para os ver, finalmente, ganhar títulos ao
Benfica. Ou seja, o Sporting projecta-se mentalmente no FC Porto e acaba
por dar razão a Moutinho que, mais esperto, se projectou fisicamente
para o Estádio do Dragão para, como o próprio explicou, «ganhar
títulos», que só muito dificilmente ganharia em Alvalade.
Com o devido respeito, trata-se de uma situação curiosa do ponto de
vista da psiquiatria de massas. Não tenho nada mais a acrescentar.
HONESTAMENTE, nada tenho a censurar aos jogadores do Benfica na final
da Supertaça no que diz respeito ao pouco entusiasmo e à reduzidíssima
capacidade de concentração que exibiram no sábado passado em Aveiro. Eu
própria, só mesmo à hora do jogo é que me lembrei que havia futebol e
que o Benfica ia jogar. Isto para verem como uma pessoa pode
desconcentrar-se facilmente em certos momentos que deviam exigir maior
acuidade e empenho.
Presumo que aos jogadores do Benfica tenha acontecido precisamente a
mesma coisa. Pronto, passaram um sábado distraído e quando deram pela
coisa já não havia nada a fazer. É normal, ao fim e ao cabo. A Supertaça
não nos diz muito. O Benfica entrou em campo no sábado com um registo
de 9-1 em finais perdidas para o FC Porto. Valeria a pena tentar reduzir
para9-2? Não, de modo algum, até parecia mal. Pessoalmente, prefiro
10-1 a 9-2, tem mais dignidade. 10-1 em finais da Supertaça perdidas
para o FC Porto não é nenhum desastre. É apenas um depoimento sobre a
dita competição, uma espécie de tese de pedantismo levado ao extremo.
Confesso, gosto. E antes isto do que nos desculparmos com o facto de a
Federação Portuguesa de Futebol, organizadora da prova, não ter feito
disputar o jogo com a Jabulani, a moderna bola a que a nossa equipa tão
bem se adaptou na pré-temporada.
A mudança de bola pode-nos ter sido fatal? Provavelmente. E
poderíamos até elaborar uma longa dissertação sobre o tema, à laia de
desculpa esfarrapada, se não tivesse sido exactamente essa a desculpa
dada por André Villas-Boas depois das duas derrotas do FC Porto no
torneio de Paris…
Leonor Pinhão, 12 de Agosto in Jornal A Bola

