Aqui há fantasmas
Há quem seja fanático quanto à
política, quanto à religião, quanto à nacionalidade. Pessoal mente,
prefiro
guardar o facciosismo para aquilo que verdadeiramente interessa: o
Benfica. Os
temas menores despertam em mim emoções apropriadas à sua dimensão.
Talvez por
isso tenha, sobre a Selecção Nacional, um olhar mais distanciado e
neutro do
que aqueles
hooligans aos quais alguns chamam jornalistas.
Durante
o Campeonato do Mundo, deixo o fanatismo suspenso. Os jornalistas
desportivos fazem
o contrário. Passam quatro anos a praticar aquilo que eles tomam por
isenção.
Em foras-de-jogo escandalosos, talvez o árbitro mereça o benefício da
dúvida.
Perante o maior
penalty do mundo, ficam com algumas dúvidas mas respeitam a
decisão. Assim que começa o Mundial, entregam a carteira de jornalista e
mandam
a imparcialidade às malvas. O código deontológico deixa de valer quando a
Selecção joga. Por exemplo, quando Tiago caiu na área do Brasil, percebi
logo
que não tinha havido falta. Os jornalistas que faziam o relato na
televisão
começaram a gritar penalty ainda a bola não tinha passado do meio
campo.
Foram necessárias duas repetições para reconhecerem, muito
relutantemente, que
ninguém tinha tocado no jogador português. Quando Juan jogou a bola com a
mão,
os comentadores do jogo começaram a preencher um requerimento à FIFA com
vista
à irradiação do defesa brasileiro, e depois lamentaram que o árbitro
tivesse
aplicado as regras, mostrando apenas um amarelo. O único brasileiro a
quem os
nossos jornalistas não arreganharam o dente foi mesmo o Pepe.
Curiosamente,
também foi o único brasileiro que merecia, de facto, ter sido expulso.
Nas
entrevistas rápidas e conferências de imprensa, o modelo das perguntas é
sempre
o mesmo: trata-se de elogios com um ponto de interrogação no fim. Fulano
de
Tal, não é um enorme orgulho acabar a fase de grupos sem qualquer golo
sofrido?
Ninguém se lembra de perguntar, ainda que de passagem: Fulano de Tal,
não é
um bocadinho preocupante acabar a fase de grupos tendo conseguido marcar
golos
apenas à Coreia do Norte?
Entretanto,
os
meus compatriotas continuam divididos: scolaristas de um lado e
queirozistas
do outro. Pela minha parte, nunca achei que Scolari e Queiroz fossem
treinadores que merecessem clube de fãs. É verdade que Scolari é o
treinador
mais bem sucedido de sempre da Selecção Nacional, mas talvez isso diga
mais dos
seleccionadores que temos tido do que dele. Quanto a Queiroz, parece
assombrado
pelo fantasma de Scolari. E, por isso, aparentemente resolveu emular o
treinador
que mais retumbantemente venceu Scolari: Otto Rehhagel. O
ex-seleccionador da
Grécia teria apreciado a equipa portuguesa que ontem empatou com o
Brasil.
Estavam em campo dois laterais esquerdos, quatro centrais, dois médios,
um
extremo e um Danny - cuja posição confesso que ainda não percebi
exactamente
qual é. A selecção portuguesa está, por tanto, assombrada por dois
fantasmas: o
de Scolari e o de Rehhagel. Se algum médium conseguir convocar o
fantasma de
Mourinho, talvez Portugal seja campeão.
Há
um limite para além do qual a rivalidade clubística deixa de fazer
sentido. Uma
coisa são saudáveis picardias, outra são altercações azedas. A BOLA tem
colunistas do Benfica, do Sporting e do Porto, e tanto benfiquistas como
sportinguistas devem reconhecer, sem sectarismo, que se encontram em
desvantagem. O Porto é o único que tem, entre os seus representantes
neste
jornal, um homem que além de colunista, é um escritor e dos bons. Um
abraço
para o Francisco José Viegas.
Ricardo Araújo Pereira, 26 de Junho in Jornal A Bola

