Espalhou-se como uma praga prometendo tornar a nossa
vida em sociedade num Inferno. Nas mãos de crianças e adultos é uma arma
letal que ameaça, a cada momento, rebentar com os tímpanos de todos.
A GALP oferece-a, prometendo "energia positiva". Não sei o efeito que
tem no leitor, mas a mim, um pacifista dos quatro costados, provoca-me
instintos homicidas. Sem olhar a géneros ou idades.
Nos estádios, ao que parece, a epidemia não
causa menores estragos. Os treinadores queixam-se que não conseguem
dar indicações aos jogadores. Os jogadores queixam-se que não conseguem
ouvir os treinadores. Os árbitros queixam-se que não se conseguem ouvir
uns aos outros. Os jornalistas queixam-se que não conseguem falar para
as redacções. Há mesmo quem diga que a coisa pode provocar ataques de
elefantes. Os médicos garantem que pode causar surdez.E ainda não
ouvimos 90 mil pessoas a soprar naquele instrumento do Diabo ao mesmo
tempo.
Agora chegou a vez do público se queixar:
é insuportável ter a sensação de estar durante duas horas num
engarrafamento. O som contínuo de vespeiro das malditas vuvuzelas
não é apenas massacrante. Torna imperceptível as reacções do público a
cada remate, golo, falhanço. Não sentimos nem a alegria, nem a
frustração. Apenas aquele roncar permanente.
Quem teve a ideia de tornar isto no "som de marca" deste Mundial não
detesta apenas futebol. Odeia a humanidade. Se isto continua corremos o
risco de assistir à primeira enxaqueca à escala global da história
deste planeta. É com todo o respeito pelas tradições locais que
deixo aqui um apelo sentido: calem-me estas malditas vuvuzelas! Aquilo
só pode fazer mal ao ambiente.
Daniel Oliveira, 13 de Junho de 2010 in Jornal EXPRESSO
