domingo, 13 de junho de 2010

Calem-me essas vuvuzelas!


Espalhou-se como uma praga prometendo tornar a nossa vida em sociedade num Inferno. Nas mãos de crianças e adultos é uma arma letal que ameaça, a cada momento, rebentar com os tímpanos de todos. A GALP oferece-a, prometendo "energia positiva". Não sei o efeito que tem no leitor, mas a mim, um pacifista dos quatro costados, provoca-me instintos homicidas. Sem olhar a géneros ou idades. 

Nos estádios, ao que parece, a epidemia não causa menores estragos. Os treinadores queixam-se que não conseguem dar indicações aos jogadores. Os jogadores queixam-se que não conseguem ouvir os treinadores. Os árbitros queixam-se que não se conseguem ouvir uns aos outros. Os jornalistas queixam-se que não conseguem falar para as redacções. Há mesmo quem diga que a coisa pode provocar ataques de elefantes. Os médicos garantem que pode causar surdez.E ainda não ouvimos 90 mil pessoas a soprar naquele instrumento do Diabo ao mesmo tempo.

Agora chegou a vez do público se queixar: é insuportável ter a sensação de estar durante duas horas num engarrafamento. O som contínuo de vespeiro das malditas vuvuzelas não é apenas massacrante. Torna imperceptível as reacções do público a cada remate, golo, falhanço. Não sentimos nem a alegria, nem a frustração. Apenas aquele roncar permanente. 

Quem teve a ideia de tornar isto no "som de marca" deste Mundial não detesta apenas futebol. Odeia a humanidade. Se isto continua corremos o risco de assistir à primeira enxaqueca à escala global da história deste planeta. É com todo o respeito pelas tradições locais que deixo aqui um apelo sentido: calem-me estas malditas vuvuzelas! Aquilo só pode fazer mal ao ambiente.

Daniel Oliveira, 13 de Junho de 2010 in Jornal EXPRESSO


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