Quem esteve atento à imprensa do Porto, esta semana, sabe que Pinto da
Costa acaba de contratar o melhor treinador de todos os tempos. Dia após
dia, Villas Boas foi sendo descrito nos jornais de modo a que ninguém
tivesse dúvidas: Villas Boas não é o novo Mourinho; Mourinho é que, com
esforço e sorte, poderá vir a ser o novo Villas Boas. Aqueles adeptos
que, levianamente, tinham preferência por treinadores com mais de seis
meses de experiencia, foram confrontados com páginas e páginas de
informações detalhadas sobre o extraordinário perfil de Villas Boas e
puderam confirmar que estavam a ser ridículos Porque Villas Boas é
jovem. Vilas Boas é ambicioso. Villas Boas é extremamente moderno.
Villas Boas ainda não parou de evoluir. Villas Boas é
extraordinariamente jovem. Villas Boas é arruivado e chama-lhe
cenourinha. Villas Boas é mesmo muito ambicioso. Villas Boas tem o
número de telefone de José Mourinho na sua agenda. Villas Boas adora os
jogadores. Os jogadores adoram Villas Boas. Villas Boas é mais jovem do
que quase toda a gente. Villas Boas fez relatórios magníficos para
Mourinho. Villas Boas é tão ambicioso que até faz dor de cabeça. Villas
Boas quase nunca diz palavrões. Villas Boas dá conferências de imprensa
de antologia porque antecipa as perguntas dos jornalistas e ensaia as
respostas geniais que vai dar. Villas Boas uma vez falou com um
jornalista num aeroporto e deixou-o muito bem impressionado. Até porque é
jovem. E ambicioso. Villas Boas tem dupla ascendência nobre: é o 4.º
visconde de Guilhomil e o 17.º novo Mourinho.Villas Boas sabe estar.
Villas Boas lê os jornais todos logo pela manhã, o que é notável. Villas
Boas sabe o que é o esternocleidomastoideu (esta informação não vinha
na imprensa, mas julgo que apenas por esquecimento). Villas Boas não
treina, orienta processos de treino. Villas Boas não dá instruções,
incute conceitos. Sempre de forma jovem e ambiciosa. E foi certamente
por tudo isto que, dos 50 nomes de treinadores que Pinto da Costa disse
ter na cabeça, houve 49 que não tiveram currículo nem categoria para
levar a melhor ao rapaz que nunca treinou numa competição europeia e
deixou a Académica num glorioso 11.º lugar, dois pontos abaixo do Paços
de Ferreira de Ulisses Morais.
Foi uma semana histórica. Certa capa de jornal colocava frente a
frente os dois mais prováveis candidatos ao lugar de treinador do Porto e
o respectivo resumo de carreira. De um lado, Muricy Ramalho. E, por
baixo da fotografia, a legenda: «três campeonatos brasileiros e uma taça
CONMEBOL». Do outro lado, Villas Boas. E, no lugar do currículo, vinha
escrito: «7epocas de Mourinho». Era, portanto, o confronto entre um
tricampeão do Brasil e um heptacampeão dos relatórios. Sem surpresa,
ganhou o último. Como benfiquista, não posso deixar de estar preocupado e
julgo que se devem tomar medidas drásticas: avançar para o despedimento
imediato de Jorge Jesus e contratar a Sr.ª D. Matilde, a mulher do
special one. Tem cerca de 20 épocas de Mourinho no seu palmarés.
Parece-me jovem. Caso seja ambiciosa, leia os jornais todas as manhãs e
prometa pintar o cabelo de ruivo, é oferecer-lhe um contrato de dois
anos com mais um de opção.
Quem julga que exagero acerca das capacidades de Villas Boas não
precisa de ler as reportagens da imprensa nortenha. Para se ter uma
noção da importância que o novo treinador do Porto tinha na equipa de
Mourinho, bastará recordar que, esta época, já sem a preciosa
colaboração de Villas Boas, Mourinho ganhou apenas o campeonato
italiano, a taça de Itália e a Liga dos Campeões. O leitor lembra-se
certamente das célebres imagens de Mourinho agarrado a Materazzi, na
despedida de Milão. Pois bem, neste momento tenho a certeza de que ambos
a chorar com saudades dos relatórios de Villas Boas. «I rapporti! I
rapporti!», chorava Materazzi. «Ma che saudadini!», soluçava Mourinho.
«Era cosi giovani e ambizioso!», suspiravam ambos.
A culpa é do próprio Mourinho, que tem esta qualidade única. Os
outros grandes treinadores do mundo não transmitem, por osmose, os seus
conhecimentos ao resto da equipa técnica. Quem faz relatórios para Fabio
Capello não passa a saber treinar como ele. Os adjuntos de Alex
Ferguson não se transformam em treinadores geniais (como nós bem
sabemos). Mas os que rodeiam Mourinho passam a perceber de futebol por
contágio. São contaminados pela especialidade de special one. Pode ser o
melhor treinador do mundo, mas é um perigo para a saúde pública.
Ricardo Araújo Pereira, 5 de Junho de 2010 in Jornal A Bola

