O inimigo de Pinto da
Costa não é o túnel, é o YouTube
Talvez tenha havido algum exagero nos festejos benfiquistas pela
conquista do 32.º campeonato da história do clube. Na verdade, saiu
muita gente para a rua a fazer barulho e a dançar. Também é provável que
tenha havido algum exagero na cobertura que as televisões e os jornais
deram às comemorações vermelhas. É, no entanto, compreensível porque a
imprensa regula-se, entre outras coisas, pelo mercado e quando há
multidões em catarse o fenómeno reveste-se de índole sociológica e
aumentam, no dia seguinte, as tiragens dos jornais e as audiências
televisivas. Aparentemente, trata-se de um contra-senso porque a
sociologia nunca foi um bom negócio. A não ser quando o assunto é o
Benfica, o que prova a grandeza e a originalidade do clube mais popular
do País.
Mas nada disto explica o acabrunhamento, a má disposição, a
crispação com que no Jamor foi festejada pelo FC Porto a conquista da
Taça de Portugal sobre o Desportivo de Chaves, por 2-1. Muito menos
explica a «timidez», no dizer dos repórteres das televisões, de serviço
na Avenida dos Aliados, com que «sempre os mesmos seis carros» davam
voltas à praça «como acendalhas», a ver se a festa portista pegava. A
verdade é que não pegou.
Dificilmente pegaria porque nestas coisas do
futebol, para o bem ou para o mal, há sempre uma simbiose entre os
jogadores e os adeptos. Uns puxam pelo outros e vice-versa, é assim que a
magia funciona. É puro contágio. E é de crer que a má disposição que o
capitão Bruno Alves apresentava no final do jogo, respondendo torto aos
jornalistas, afirmando que queria ver a sua vida melhorada, tenha
contagiado a nação azul e branca e contribuído para acabrunhar aquela
hora que devia ser de alegria e de festa.
Como se não bastasse a
neura de Bruno Alves, houve ainda que suportar a crispação de Jesualdo
Ferreira, saindo a meio da conferência de imprensa, acusando os
jornalistas de maldades que lhes estão vedadas, por não-inerência de
cargo. Perante isto, qual é a vontade que uma pessoa tem de sair à rua
para fazer barulho e dançar?
No dia seguinte, teve de vir à liça o
presidente do clube dar ânimo aos adeptos. E deu mesmo. Garantindo que o
slogan do seu novo mandato é «vencer, mas não de qualquer maneira».
Explicou-se melhor, para que não fiquem dúvidas entre os adeptos, nem
mesmo entre aqueles 2% que não votaram nele: «Não é vencer em qualquer
túnel, é vencer à FC Porto». Compreenderam?
O prato principal, ou
seja, o próximo campeonato ainda vem longe mas já se promete a fruta.
Até à hora da sobremesa, o presidente do FC Porto vai continuar a atacar
os seus inimigos. Mas comete um erro crasso.
É que o maior inimigo
de Pinto da Costa não é o «túnel».
O maior inimigo do presidente do
FC Porto é o YouTube.
Graças a uma série de imprevistos, e com o
devido e sereníssimo respeito, a visita do papa a Portugal redundou na
mais eloquente súmula do que foi a temporada futebolística nacional e do
que são as características mais marcantes das personalidades e das
competências (e incompetências) congénitas às lideranças dos grandes
emblemas do futebol nacional.
Por exemplo, em Lisboa, os três grandes
— Benfica, Sporting e Belenenses —, respondendo ao convite do
Patriarcado da capital para se fazerem representar na cerimónia do
Terreiro do Paço, exibiram no decorrer de uma conferência de imprensa
conjunta as camisolas oficiais das suas cores que pretendiam oferecer ao
líder máximo dos católicos.
Quando chegou o momento tão aguardado
verificou-se uma espécie de breve mas amplamente descritivo resumo, no
género de missa campal, daquilo que foi a última época dos vermelhos da
Luz, dos verdes da Alvaláxia e dos azuis do Restelo.
Tal como ficou
expresso na tabela classificativa do campeonato de 2009/2010, o Benfica
foi o primeiro também no Terreiro do Paço a entregar a sua oferenda. E
foi indisfarçável, porque se ouviu muito bem até na televisão, o
regozijo da multidão quando Bento XVI ergueu a camisola dos campeões
nacionais.
Seguiu-se o Sporting que vem de uma época para esquecer.
Nada mais natural, portanto, que José Eduardo Bettencourt se tivesse
esquecido de tomar bem conta da camisola do Sporting que ele próprio fez
questão de transportar em mão até à grande praça à beira do Tejo. A
comunicação social explicou a situação em poucas palavras: «Acontece que
a camisola desapareceu, presume-se que furtada. O presidente do
Sporting ficou inconsolável e teve de improvisar.»
E tal como
improvisou mudando de Paulo Bento para Carlos Carvalhal e de Carlos
Carvalhal para Paulo Sérgio, Bettencourt, mudando de camisola como quem
muda de treinador, improvisou ali mesmo, já a poucos metros de distância
de Sua Santidade, usando como prenda à última hora o pólo verde com o
emblema dos leões que trazia vestido o jovem Renato Neto, um futebolista
dos juniores que o acompanhava na embaixada ao papa.
Digam lá se
este episódio não exemplifica na perfeição aquilo que foi a última época
do Sporting e o carisma do seu presidente que, para desgosto dos
humoristas portugueses, anunciou anteontem que não vai fazer mais
declarações públicas até ao fecho do mercado de Verão.
O Belenenses,
que foi o penúltimo da tabela classificativa, foi o último a entregar as
suas oferendas a Bento XVI. Enfim, devia ter sido o último, mas nem
isso foi «uma vez que os seus representantes chegaram atrasados e o
protocolo não autorizou a entrega», conforme se pôde ler nos jornais no
dia seguinte. Haverá ilustração mais esclarecedora do que foi a época de
um emblema histórico que teve a infelicidade de descer de Divisão?
Depois
de Lisboa, o papa foi ao Porto. E no Porto, tal como em Lisboa, a
organização da cerimónia primou pela responsabilidade dos enfeites e da
iconografia do espaço público — em Lisboa, o Terreiro do Paço, no Porto,
a Avenida dos Aliados —, numa uniformidade cromática discreta e pensada
para que as cerimónias não descambassem para o arraial. No tom de
crispação corrente em todos os ofícios da época, o FC Porto reagiu
indignadamente em comunicado ao facto de «os fiscais da câmara» terem
mandado remover «um pendão» que cobria parte da fachada da antiga sede
do clube na Avenida dos Aliados, saudando Sua Santidade em nome do
clube.
Trata-se, no fundo, de uma questão cívica difícil de
entranhar. O Porto é dos portuenses, não é do FC Porto. Passa-se
exactamente a mesma coisa com a Avenida dos Aliados, que é a sala de
visitas da cidade e dos cidadãos e não é propriedade de nenhum emblema
futebolístico. Mesmo quando recebe um papa de paramentos vermelhos.
Garante
o diário espanhol As que José Mourinho colocou como condição para
treinar o Real Madrid a contratação de David Luiz, Di María e Fábio
Coentrão, três jogadores «que foram determinantes» para a conquista do
título pelo Benfica.
Se der ouvidos à sapiência de Pinto da Costa e
se quiser ser campeão em Espanha, Mourinho não tem nada que levar
jogadores do Benfica. Bastava-lhe levar o «túnel»da Luz mais o «túnel»
de Braga. E mais dois stewards e mais o dr. Ricardo Costa, presidente da
Comissão de Disciplina da Liga.
Jogadores «determinantes»?
Francamente, onde é que viu uma coisa dessas? Nem os jornalistas
espanhóis do As nem José Mourinho percebem minimamente de futebol.
Leonor Pinhão, 20 de Maio in Jornal A Bola
