Deixem lá jogar o Falcao!
(ou «admito que levei uma palmada, mas até gostei…»)
O Sporting de Braga está a um ponto de
garantir o apuramento para a fase de qualificação da Liga dos Campeões
de 2010/2011 e o Benfica está a um ponto de conseguir ganhar o
campeonato nacional de 2009/2010. Tudo isto a duas jornadas do fim da
prova quando os exercícios de aritmética vão apertando, apertando…
Se quisermos analisar o assunto através do cálculo das
probabilidades, conclui-se que é tão difícil para o FC Porto chegar à
Liga dos Campeões como é difícil para o Sporting de Braga chegar ao
título. No entanto, tratando-se de futebol, tudo é possível. O próprio
Domingos Paciência, competente treinador do super Braga, fez questão de
recordar há poucos dias que se lembra muito bem de já ter visto o
Desportivo da Corunha perder um título nacional espanhol no último
minuto do último jogo.
E quem é que não
se lembra de um fenómeno como aquele que deixou em lágrimas os nossos
irmão galegos? Na temporada de 1993/1994, o Desportivo da Corunha
liderou o campeonato de Espanha desde a 14.ª jornada até à penúltima
ronda, entrou em campo para o derradeiro jogo, contra o Valência, com
uma margem mínima de avanço sobre o Barcelona, segundo classificado, e
não só não conseguiu ganhar aos valencianos, jogando em casa, como ainda
teve de suportar o inferno de ver o seu avançado sérvio Djukic falhar
uma grande penalidade nos momentos finais do jogo.
Longe
vá o agouro, não é Domingos?
De qualquer modo, para quem tem vindo a
assistir com imparcialidade ao corrente campeonato português poucas
dúvidas restam sobre os méritos atribuíveis ao Benfica, que jogou sempre
mais e melhor futebol do que um Braga sensacional e que, por isso
mesmo, merecerá ganhar a prova e nenhumas dúvidas restam sobre os
méritos atribuíveis ao Sporting de Braga que, ao longo da época, foi
sempre muito melhor e mais consistente equipa do que a equipa do FC
Porto, com excepção daquela sua visita ao Estádio do Dragão onde sofreu
um inexplicável ataque de nervos e de lassidão e acabou por sair
goleado.
Assim sendo, o Sporting de Braga merece
muito mais ir à Liga dos Campeões do que o FC Porto. Embora não precise
da Liga dos Campeões porque é um clube que está a nadar em dinheiro, ao
contrário do FC Porto que vem apresentando passivos que preocupam alguns
dos seus associados mais ilustres que nem se coíbem de discutir o
assunto pelos tribunais, discutindo, com a intermediação de um juiz,
honorários e prémios dos administradores do seu emblema. Como todos
sabemos, a Liga dos Campeões tem dois tipos de atractivos: o desportivo,
pelo prestígio que confere, e o financeiro, pela riqueza que
proporciona e que sempre constitui motivo de alegria.
Ao
contrário do tesoureiro do FC Porto, o tesoureiro do Sporting de Braga
está-se positivamente nas tintas para o dinheiro. Porque não precisa,
como vem sendo provado há meses e com exemplos práticos. E vêm aí novas
provas, para que não restem dúvidas sobre o assunto.
Já
foi anunciado, em comunicado oficial, que «a Direcção do Sporting de
Braga decidiu abrir as portas gratuitamente do Estádio Municipal, desta
feita para a recepção ao Paços de Ferreira, no próximo domingo», tal
como já tinha acontecido por ocasião da visita do Marítimo à cidade dos
arcebispos, que produziu uma assistência de 30 mil espectadores, e por
ocasião da visita do Olhanense ao mesmo estádio. Ou seja, o Sporting de
Braga não vive da bilheteira, dá-se ao luxo de não vender ingressos, não
precisa do dinheiro dos seus adeptos, não precisa sequer de ir à Liga
dos Campeões.
Isto não é concorrência desleal. Isto é o
triunfo de uma gestão económica que faz inveja a muita gente. A muito
boa gente, evidentemente.
A presença de Jesualdo Ferreira no banco no jogo com o Benfica
esteve em dúvida. Em Setúbal, foi a primeira vez que o professor foi
expulso em toda a sua carreira. E logo numa semana em que também foi a
primeira vez em toda a sua carreira que Jorge Jesus afirmou preferir
«festejar o título no relvado» do que saboreá-lo em casa a ouvir o
relato de jogos de terceiros. Esta ausência de Jesualdo Ferreira
encerraria em si uma grande incerteza e uma grande certeza.
A
grande incerteza era saber-se quando é que o treinador que conduziu o
FC Porto ao tetra se voltaria a sentar no banco do FC Porto no Estádio
do Dragão.
A grande certeza seria esta: no domingo,
Jesualdo Ferreira não estaria no relvado se, por acaso, Jorge Jesus
conseguir mesmo festejar o título na casa do grande rival.
Há
expulsões que vinham mesmo a calhar. Mas a Comissão Disciplinar da Liga
não deixou. Jesualdo vai orientar o FC Porto desde o relvado. Digam lá
que isto não é uma cambada de benfiquistas…
OS jornais
continuam a atirar nomes de possíveis sucessores de Jesualdo Ferreira
quando não é sequer certo que o professor não seja reconduzido na
posição que vem ocupando. Acaba por se tornar um exercício interessante
tentar descortinar o que pode vir a ser verdade e o que é,
declaradamente, uma mentira impossível no que diz respeito ao perfil do
eventual futuro treinador dos ex-campeões nacionais.
Enquanto
o mistério André Villas Boas prossegue, outros treinadores há que estão
completamente fora de hipótese de vir a suceder a Jesualdo Ferreira num
futuro imediato. Aparentemente até reuniam grandes qualificações para o
cargo mas desgraçaram todas as suas hipóteses com declarações
insuportáveis de ouvir no Estádio do Dragão.
Nesta
situação estão, por exemplo, Jorge Costa, autor da frase «o Benfica
merece ganhar o campeonato» e Paulo Bento, autor da frase «o Benfica
será um justo campeão». Francamente, isto é perder o perfil de rajada.
QUEM está com o perfil em alta para rumar brevemente para o FC
Porto é o jovem Bruno Ribeiro, do Vitória de Setúbal, que disputou com Falcão o lance que originaria o cartão amarelo fatal. Ribeiro sente «por
empatia, o desgosto de Radomel» e pede a sua despenalização em nome da
verdade desportiva: «É verdade que levei uma palmada, mas admito que não
foi intencional», tem vindo a repetir contristado. Vá lá, sempre é
melhor dizer isto do que dizer qualquer coisa como: «… é verdade, levei
uma palmada, mas até gostei…»
Curiosamente, o caso de Bruno Ribeiro tem,
por portas travessas, paralelo com um outro que ocorreu na já distante
época de 1992/1993, quando um repórter da RTP, em serviço no Estádio das
Antas, levou uma palmada em directo. Melhor dito, levou uma série de
palmadas em directo. O jornalista tecia sobre o relvado os comentários
finais a um jogo entre o FC Porto e o Famalicão, que o Famalicão acabava
de vencer por 1-0, quando um elemento não identificado do público,
provavelmente um steward, entrou pelo campo dentro e despachou à palmada
a equipa da reportagem da RTP. O espectáculo foi transmitido em
directo, toda a gente viu, mas nem o jornalista da RTP nem a própria RTP
se deram à valentia de apresentar queixa à Justiça.
Ficou
tudo em família.
Por todo este histórico, resta aos
benfiquistas unirem as suas vozes à voz de Bruno Ribeiro e clamar:
— Deixem lá jogar o Falcão!
Leonor Pinhão, 29 de Abril in Jornal A Bola
