O Porto está bem colocado para ganhar a taça dos túneis
Acho que o castigo a Vandinho é injusto, tendencioso e
vergonhoso
Rui Moreira, 19 de Fevereiro de 2010
Vivemos (…) num país onde há gente com decência, competência e
bom senso, como agora se comprova. (…) Infelizmente, a justiça chega
tarde e a
más horas
Rui Moreira
A justiça desportiva tem particularidades que podem escapar aos
leigos, mas é fácil de entender pelos juristas — e pelos comerciantes,
contanto
que usem gravata. Aos olhos de um ignorante, uma decisão iníqua não
pode, em
princípio, ser mantida por gente com decência, competência e bom senso,
mas um
especialista em justiça desportiva sabe que o mesmo castigo pode ser
infame
quando decidido pela Comissão Disciplinar da Liga e justo quando
confirmado
pelo Conselho de Justiça da Federação. Aos outros, só lhes resta
procurar compreender
uma ciência que, aparentemente, não está ao seu alcance. Que se passou,
então,
entre aquele dia de Fevereiro em que Rui Moreira considerou injusto,
tendencioso e vergonhoso o castigo de Vandinho e o dia de Março em que
lhe
pareceu que as pessoas que o confirmaram eram decentes, competentes e
assisadas? É fácil: passaram quatro jornadas e o Porto continuava a oito
pontos
do Braga.
“Gostei de ver Hulk sentado no banco. (…) talvez lhe devessem
ter explicado que fora preterido por causa dos seus tiques e
individualismo,
das suas inócuas simulações. Talvez assim tivesse optado por uma outra
atitude,
logo que surgisse a oportunidade de jogar. Em vez disso, e como tem sido
costume, Hulk foi de pequena utilidade quando entrou.”
Rui Moreira, 27 de Novembro de 2009.
Vinte e três dias antes das agressões dos bons pais de família
no túnel da Luz, Rui Moreira comunicava aos leitores d'A BOLA quanto
gostava de
ver Hulk sentado no banco. Segundo Rui Moreira, que certamente acompanha
os
jogos do Porto com mais atenção do que eu, Hulk era um jogador
individualista,
dado a tiques e simulações inócuas, e era costume o seu contributo à
equipa ser
de pequena utilidade. No entanto, menos de um mês depois, Hulk passou de
suplente inútil a titular genial que só não carregava sozinho a equipa
rumo ao
penta porque a Liga não deixava. Que se passou, então, entre aquele dia
de
Novembro em que Rui Moreira defendeu que Hulk devia jogar menos e o dia
de
Dezembro em que ele começou a lamentar que ele não pudesse jogar mais? É
fácil:
o Porto perdeu e ficou a quatro pontos do Benfica.
Assim se vê a gratidão das pessoas: Rui Moreira queria ver Hulk
no banco. A Liga, cumprindo um regulamento aprovado com o voto favorável
do
Porto, mandou-o para a bancada. Em lugar de agradecer a fineza, Rui
Moreira
protesta até hoje. São feitios.
Depois de ter visto a entrada de João Moutinho sobre Ramires e a
patada de Miguel Veloso nas costas de Kardec, Costinha foi à conferência
de
imprensa dizer que o Luisão tinha sido um bocadinho bruto. Este é o
mesmo
Costinha cuja delicadeza em campo todos recordamos com saudade. O mesmo
que, no
jogo de estreia no campeonato português, pelo Porto, foi expulso
(curiosamente,
em Alvalade) ainda na primeira parte. Imagine o leitor que Keith
Richards, o
guitarrista dos Rolling Stones, convocava uma conferência de imprensa
para
dizer aos jornalistas que estava indignado com a quantidade de drogas
que esta
juventude consome. Era mais ou menos equivalente.
Há uns meses, José Eduardo Bettencourt disse que os
sportinguistas ainda iriam ter saudades de Paulo Bento. Só não avisou
que
também ainda iriam ter saudades de Pedro Barbosa, Sá Pinto e Soares
Franco. Por
este andar, qualquer dia ainda suspiram pelo Jorge Gonçalves.
Valeu a pena o investimento feito pelo Porto: o plantel mais
caro do futebol português está bem colocado para, esta época, ganhar uma
taça
ao Chaves. Trata-se, recordo, do troféu que ficará conhecido como «a
taça dos
túneis», porque foi no túnel de Braga que Cardozo foi castigado por não
agredir
ninguém, e por isso falhou o jogo em que o Benfica seria eliminado
frente ao
Guimarães. Perdemos uma boa oportunidade de organizar uma vigília, foi o
que
foi.
Ricardo
Araújo Pereira, 17 de Abril de 2010 in Jornal A Bola