
'Welcome'
to Algarve
Sendo o Algarve praticamente solo inglês, tenho
expectativas mais ou menos elevadas para a final da Taça da Liga. Todos
sabemos o que acontece ao Porto quando tem de jogar em Inglaterra contra
equipas que vestem de vermelho e branco. Provavelmente por isso, a Liga
tomou medidas com o intuito de equilibrar o desafio: a nomeação de
Jorge Sousa é um sinal claro de que se pretende um jogo bastante
nivelado. Que diriam os portistas se um antigo elemento dos No Name Boys
fosse nomeado para arbitrar uma final entre Benfica e Porto? Haveria
certamente vigílias lacrimejantes e pungentes comunicados. Que dizem os
benfiquistas quando Jorge Sousa é nomeado para arbitrar o jogo de
amanhã? Encolhem os ombros. E dizem que o jogo de Marselha, com a
arbitragem que teve, foi um bom treino para esta final. É assim que se
chama público aos estádios: a maior parte dos Super Dragões vai assistir
à partida na bancada, mas um deles terá o privilégio de ver o jogo
mesmo no relvado. Ninguém pode acusar a Liga de não saber promover o
espectáculo — que terá, aliás, outros motivos de interesse. Depois das
escaramuças com José Lima, no intervalo do Sporting-Porto, e com Vilas
Boas, no intervalo do Académica-Porto, com quem irá desentender-se o
treinador-adjunto José Gomes no intervalo da final? Como é que os
stewards da Luz conseguirão provocá-lo de forma infame a 300 quilómetros
de distância? Quantos jogos de suspensão serão aplicados aos jogadores
do Benfica que não agredirem ninguém, como aconteceu com Cardozo no
Braga-Benfica (arbitrado por Jorge Sousa)? Tal como sucedeu no ano
passado, irá algum portista sugerir que o Porto perca o jogo por falta
de comparência, ou esta época já lhes apetece disputar este troféu? Que
inquietação.
Foi uma excelente quinta-feira europeia para os
portugueses: o Benfica passou aos quartos-de-final da Liga Europa e
Simão Sabrosa também. Aconteceu, em todo o caso, um episódio triste: por
uma daquelas coincidências inexplicáveis, dois dias depois de Salema
Garção ter instigado os adeptos do Sporting a criarem um ambiente hostil
ao Atlético de Madrid, vários sportinguistas apedrejaram os adeptos
espanhóis. Quem diria? No entanto, tenho a certeza de que as pedras
foram trazidas de Alcochete por sócios do Benfica, os mesmos que,
naquele jogo decisivo do campeonato de juniores, atiraram pedras aos
inocentes sportinguistas que nunca tinham visto um paralelepípedo na
vida. Entretanto, Costinha parece ser o director desportivo de que o
Sporting precisava: Sá Pinto tentou expulsar Liedson do clube e não foi
capaz, mas Costinha mostrou mais talento e, ao que parece, conseguiu
mesmo afastar definitivamente Izmailov. A generalidade dos directores
desportivos tem a responsabilidade de recrutar jogadores para a equipa
que dirige; no Sporting, compete ao titular do cargo expulsar os que lá
estão. É, sem dúvida, um clube diferente.
Que azar teve o Marselha:
no espaço de uma semana passou de equipa que, finalmente, mostrou ao
Benfica o que era ter pela frente um adversário a sério, com excelentes
jogadores de nível mundial, a equipa composta por coxos que, afinal,
qualquer um eliminava. Quanto aos benfiquistas, apesar da liderança do
campeonato, do melhor ataque, da melhor defesa, do melhor marcador e dos
quartos-de-final da Liga Europa, continuam a não embandeirar em arco.
Quem quiser saber o que é embandeirar em arco, leia o que se escreveu na
semana em que o terceiro classificado ganhou ao Arsenal em casa com um
frango e um golo à chico-esperto. Euforia ridícula é aquilo, como os
factos viriam a demonstrar com alguma dureza.
Ricardo Araújo Pereira, 20 de Março in Jornal A Bola