Misteriosos Desaparecimentos
(…) só há duas coisas que eu odeio, quando se referem a mim: que me tirem o Miguel do nome e que me ponham a dizer uma palavra que eu nunca uso: «algo»
(…) reconfortando-se ao encontrarem-se uns aos outros na missa algo despovoada desse domingo na vila
(…) eu atravessaria a rua como se flutuasse dentro de um sonho ou de um pesadelo, algo de irremediável se teria então quebrado para sempre
Miguel Sousa Tavares
E, de repente, deixou de se falar no túnel da Luz. Confesso que estou
preocupado. Talvez valesse a pena as autoridades competentes lançarem o
alerta do costume: «Desapareceu das colunas de opinião o túnel da Luz.
Da última vez que foi visto usava uma estrutura de metal coberta por uma
lona branca com a marca dos pitons do Fernando. Se alguém possuir
informações que nos possam levar ao seu paradeiro, por favor contacte a
Polícia de Segurança Pública.» O mais chocante neste desaparecimento é o
facto de serem precisamente as mesmas pessoas que mais lembraram o
túnel da Luz aquelas que agora o esquecem. Foram meses de análises,
lamentos, acusações, queixinhas, vigílias, comunicados — tudo em nome do
túnel. Subitamente, depois de duas goleadas e um empate em casa com o
13º classificado, o túnel desapareceu. De repente, as opções do
professor Jesualdo são duvidosas, o plantel é pobre, os reforços são
fracos, a estratégia falhou e o modelo de gestão morreu. E o túnel? Com
que desumanidade se descarta assim uma infraestrutura que, ao longo de
tantas semanas, cumpriu com brilhantismo o seu papel de bode expiatório
de todos os fracassos? Houve vigílias contra o modelo de gestão? Não. O
plantel uniu-se para emitir um comunicado a condenar a sua própria falta
de qualidade? Claro que não. Foi tudo feito sempre a pensar túnel, no
mesmo túnel que é agora injustamente esquecido. A ingratidão é muito
feia.
Mesmo tendo feito uma época
menos boa, o clube da estrutura — ah, a estrutura! — continua a dar
lições. No Benfica, onde a organização é fraca e a estrutura
inexistente, dirigentes e adeptos têm celebrado o bom futebol, as
goleadas e a liderança do campeonato. Um erro, evidentemente. São
entusiasmos que não se admitem numa gestão altamente profissionalizada.
No Porto, a estrutura — ah, a estrutura! — é sólida e não embarca em
euforias. O presidente olhou para a tabela, verificou que se encontrava
num prometedor terceiro lugar e, com toda a sensatez e realismo,
prometeu o título de campeão a vivos e a defuntos. É assim que se gere
um clube. Temos muito a aprender.
Àchegada de Londres, Pinto da
Costa não aproveitou a presença das câmaras e dos microfones para fazer
uma das suas habituais e divertidas ironias, ou para atacar o
centralismo, ou para declamar José Régio. Na verdade, Pinto da Costa nem
sequer apareceu. O gesto, como sempre, foi mal interpretado. Não há, na
atitude de Pinto da Costa, a mais pequena falta de solidariedade nem de
coragem. Na verdade, foi um gesto de verdadeiro portista: a equipa
tinha acabado de fazer história na Europa, e Pinto da Costa não quis
roubar o protagonismo aos jogadores e treinador. Quando os jogadores são
contratados, é ele que os descobre, que os negoceia, que tem a argúcia
de os roubar ao Benfica. Quando levam cinco de um Arsenal desfalcado de
Fabregas, Van Persie, Gallas, Djourou, Ramsey e Gibbs, é altura de se
reconhecer o mérito ao professor Jesualdo. Há um tempo para tudo.

