Os calimeros do túnel
Olhei para o Estádio do
Mar, pouco depois do jogo começar: campo pequeno, relvado impróprio
para jogar bom futebol e a favorecer quem defende. Público da casa que
apenas queria ver a sua equipa bater o pé ao «grande», jogasse como
jogasse, equipa disposta a fazer-lhe a vontade, recorrendo a todos os
truques do anti-jogo que vêm nos compêndios, árbitro conhecido pela sua
paixão benfiquista e pelos danos causados ao FC Porto ao longo dos
tempos. Estavam reunidas todas as condições para o F.C.Porto encostar.
E encostou
Miguel Sousa Tavares
16 de Fevereiro, 2010
Até
prova em contrário, nas últimas duas semanas o campo de Matosinhos não
cresceu. O relvado, tendo em conta as condições atmosféricas, estava
igual ou pior.
O público, infelizmente, não foi submetido a sessões
de reeducação que lhe tirassem aquela vontade malévola e
incompreensível de ver a sua equipa ganhar.
A equipa, à medida a
que o campeonato se aproxima do fim e ela mesma se aproxima do fim da
tabela, estará cada vez mais disposta a fazer a vontade ao público.
O
árbitro era, como são todos, conhecido pela sua paixão benfiquista. E
foi certamente imbuído do mais profundo benfiquismo que invalidou um
golo limpo aos visitantes ainda com o resultado em 0-0.
Estavam reunidas todas as condições para o Benfica encostar. E encostou.
Encostou o Leixões à sua baliza e não saiu de lá enquanto não lhes meteu quatro batatas no bucho.
Mas, claro, para o Benfica é fácil. O Porto tem tudo contra si.
O clima deseja que o Porto perca.
A
relva deseja que o Porto perca. O próprio público adepto das equipas
adversárias tem a desfaçatez de desejar que o Porto perca. Assim é
complicado.
Depois de um pungente comunicado, de uma vigília de
protesto e de várias proclamações de união e fervor regionalista, o
Porto foi até Lisboa ser goleado. Perder por 3-0 costuma ser doloroso;
perder por 3-0 contra este Sporting é especialmente humilhante. O facto
mais espantoso da noite, porém, foi outro: José Gomes, adjunto do
Porto, foi expulso no intervalo do jogo. Expulso depois do apito,
imagine o leitor. Só a custo consegui conter a surpresa. Toda a gente
sabe que os elementos da equipa do Porto só reagem mal às derrotas que
sofrem em Lisboa se forem fortemente provocados pelos stewards da Luz.
Que cabala obscura terá estado na origem da expulsão de mais um anjinho
injustiçado? Que agravo ignóbil, que intolerável insulto? Por azar, o
caso ocorreu quando ainda se discute o túnel da Luz, e na semana em que
se recordou uma agressão antiga, também de um jogador do Porto, e
também num estádio da região da Grande Lisboa. Fernando Mendes agrediu,
na Amadora, um bombeiro — que a Comissão de Disciplina da Liga e o
Conselho de Justiça da Federação consideraram interveniente no jogo.
Mas como, se o bombeiro não está sujeito à disciplina desportiva? A
questão não se colocou. Mas e se os clubes contratarem bombeiros e os
industriarem no sentido de causarem graves danos físicos aos jogadores
adversários? Ninguém se lembrou de perguntar. Porquê? Porque o castigo,
com a duração dos mesmíssimos três meses aplicados a Hulk, foi decidido
13 meses depois dos acontecimentos, já Fernando Mendes representava o
Belenenses. A diferença é que, agora, o castigo foi decidido ao fim de
dois meses mas, ao que parece, os portistas vão passar 13 meses a
queixar-se.
Receio bem que as constantes referências às
toupeiras do túnel remetam para segundo plano os calimeros do túnel,
bicharada que merece protagonismo superior. As toupeiras do túnel,
pelos vistos, limitaram-se a escavá-lo — o que não constitui grande
proeza. Mas a actividade dos calimeros do túnel é bem mais vasta. Os
calimeros do túnel carpiram a ausência do Hulk, injustamente castigado
só por ter participado num espancamento, fizeram comunicados públicos,
e organizaram vigílias que só não foram mais participadas porque
manifestantes como Bruno Pidá, por exemplo, tinham outros compromissos.
Falta uma greve de fome e uma queixa na ONU, mas acredito que os
calimeros do túnel terão o discernimento de diversificar as suas formas
de luta pela justa libertação do mártir espancador. Mesmo sendo
benfiquista, não posso deixar de apoiar todas estas iniciativas. Eu
também não tenho dúvidas de que um dos factores que explicam o terceiro
lugar que o Porto ocupa é esse túnel maldito que os privou de dois
jogadores: mais precisamente, o túnel do Marselha, por onde costuma
entrar em campo Lucho González, e o túnel do Lyon, no qual costuma ser
visto Lisandro López. Mais: como benfiquista, eu sei bem o que uma
equipa sofre por ficar privada de elementos mais ou menos influentes.
Não me esqueço de que, por não poder utilizar Di Maria, Fábio Coentrão
e Aimar, o Benfica conseguiu ganhar apenas por magro 1-0 a um Porto na
máxima força, com Hulk e tudo. Obter resultados fracos assim custa, bem
sei.
Ricardo Araújo Pereira, 6 de Março in Jornal A Bola