quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Não vale a pena ensinar o Padre Nosso ao vigário


 
ENTRE rivais é normal que estas coisas aconteçam. Sofre-se com as vitórias dos outros e nenhum mal vem ao mundo. Tem a ver, simplesmente, com o espírito da competição. Seja qual for a competição. Mesmo em competições menores, como a Taça da Liga, coisas destas acontecem.
O presidente do FC Porto, por exemplo, é um bom exemplo.

Pinto da Costa manifestou-se sofrido nos dias que se seguiram à difícil vitória do Benfica sobre o Nacional. Sem se referir directamente ao trabalho do árbitro Olegário Benquerença no final da tarde de domingo, na Luz, e a propósito da efeméride do 25.º aniversário da morte de José Maria Pedroto, Pinto da Costa relembrou o mestre e os tempos em que, segundo Pedroto, o FC Porto era vítima de «roubos de igreja» sempre que vinha jogar a Lisboa, para concluir que «infelizmente, ainda hoje há roubos de igreja».

Restará saber se Pinto da Costa sofreu mais com a vitória do Benfica se com a má arbitragem de Olegário Benquerença.

Tendo em conta que a Taça da Liga não tem, de modo algum, o peso das grandes competições importantes e tendo em conta que o Benfica ainda se pode perder nas duas difíceis deslocações — a Guimarães e a Vila do Conde — que tem de cumprir de acordo com o calendário do seu grupo, é de admitir que o que mais fez sofrer o presidente do FC Porto foi, precisamente, a actuação notavelmente caseira de Olegário Benquerença.

Compreende-se que assim seja. Sempre que um árbitro apita e erra a favor do Benfica, o presidente do FC Porto sente-se muito desautorizado. E tem razão.

Sempre foram 25 anos de luta contra o centralismo e em favor da verdade desportiva que fizeram de Pinto da Costa uma autoridade única, sem par, quando se fala de árbitros e de arbitragem. E se um erro de um árbitro fá-lo sofrer pelo muito que batalhou pela independência dos apitos nacionais, dois erros de Olegário Benquerença deixam-no em estado de choque. E com razão.

No tempo, que já lá vai, dos «roubos de igreja», Olegário Benquerença teria certamente validado como golo aquele tiro de Petit que, para os benfiquistas, Vítor Baía só conseguiu travar para lá da linha de golo num inesquecível Benfica-FC Porto, na Luz. Mas não, Benquerença foi valente e não foi golo coisa nenhuma.

E, imagine-se, vem agora o mesmo Benquerença, armado em carapau de corrida, desautorizar o elegante regime de verdade desportiva e do fair play instaurado ao fim de tantos anos de guerra contra o centralismo…

Isto do futebol quando mete «igrejas», de facto, é um problema. É que já nem vale a pena querer ensinar o Padre Nosso ao Vigário.

Ofutebol inglês reclama Nuno Gomes. E há mais. Luiz Felipe Scolari é o treinador do FC Bunyodkor e quer levar Nuno Gomes para o mirabolante Usbequistão. É o que se lê nos jornais. O jogador já não é um jovenzinho, está, objectivamente, em final de carreira e poderá ser tentado pelo desafio. Nuno Gomes está triste no Benfica por não ser opção válida para Jorge Jesus. Compreende-se a sua tristeza.

No entanto, muito, mas mesmo muito, válidas têm sido as presenças fugazes do avançado na equipa da Luz.

Em Olhão, quando já ninguém acreditava que tal pudesse acontecer — não acreditavam os benfiquistas e, muito menos, não queriam acreditar os seus adversários directos —, Nuno Gomes marcou o tal golo que valeu o empate e um precioso ponto ao Benfica na sua épica saída ao Algarve.

No último domingo, na Luz, para a Taça da Liga, quando os jogadores do Nacional viam o tempo passar a seu favor e se interrogavam sobre a explicação para que, desta vez, não tivessem sofrido já seis golos como lhes aconteceu da última vez, lá voltou Nuno Gomes a brilhar ao seu jeito. Viram? Com um toque de primeira, isolou Saviola que haveria de culminar a jogada com o bonito golo que garantiu a vitória ao Benfica.

Compreende-se, pois, a melancolia do jogador mais antigo da casa e, por essa mesma razão, sem lugar garantido no onze de Jorge Jesus.

Há coisas muito estranhas nesta vida. Está triste Nuno Gomes. E logo agora que os benfiquistas estão tão contentes com ele…

NO futebol há de tudo, felizmente.Há treinadores que não gostam da paragem de Inverno. Jorge Jesus é um deles e explicou recente porquê: as folgas no treino e na competição fazem com que o calendário fique muito «apertado» até final da época. «Agora, é tudo em cima, quase jogamos dia sim, dia não», afirmou temendo pelo esgotamento dos seus jogadores.

Há dirigentes que não gostam da reabertura do mercado em Janeiro. Pinto da Costa, este ano, parece ser um deles e explicou porquê: no Porto, ao contrário do que acontece em Lisboa, não há «poços de petróleo».

Lá está, no futebol, havendo de tudo, é sempre uma questão de mais esgotados ou menos esgotados. Até os poços de petróleo.

Ojuiz-conselheiro Lúcio Barbosa, é o novo presidente do Supremo Tribunal Administrativo desde o princípio de Dezembro. É um órgão do Estado português. Surpreendentemente, o juiz passou um mau bocado no jantar de Natal dos funcionários e colaboradores da Liga de clubes, segundo relatava A BOLA no sábado passado.

Lúcio Barbosa, que ocupou cargos jurisdicionais da FPF e que foi vice-presidente do FC Porto, teve de ouvir de Valentim Loureiro, perante uma extensa plateia, referir-se aos processos do Apito Dourado com contagiante optimismo. Valentim Loureiro, dirigindo-se ao actual presidente do Supremo Tribunal Administrativo do Estado português manifestou-se «confiante na vitória da Justiça agora que Lúcio Barbosa preside ao Supremo Tribunal Administrativo».

Perante este desplante não faltará quem acuse Valentim Loureiro de falta de bom senso (… ou de muito bom senso), de falta de maneiras (…ou de muitas maneiras) e de abuso das circunstâncias. Não devemos alinhar nesse coro. A situação não foi criada pelo major. O major foi simplesmente igual a si próprio.

A situação foi criada pelo juiz-conselheiro Lúcio Barbosa, com a sua incauta presença na festa da Liga. É verdade que o juiz-conselheiro já foi um homem do futebol. Mas a que propósito é que o presidente do Supremo Tribunal Administrativo do país se presta a desempenhar o papel de figurante na mesa do repasto natalício da Liga de Clubes? É mesmo estar a pedi-las…
 
 
Leonor Pinhão, in Jornal A Bola

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