sábado, 9 de outubro de 2010

Crónicas Ricardo Araújo Pereira





António Araújo e judeus do século XVII: vítimas diferentes, a mesma ignomínia

“Obviamente, o João pode ser o João não podia ter sido nomeado para este jogo”
Rui Moreira,  A Bola, 13 de Agosto de 2010
Embora quase ninguém tenha dado por isso, há cerca de dois meses foi cometido um crime nestas mesmas páginas. Não é segredo para ninguém que a divulgação do conteúdo das escutas é proibida. Ora, quando usou a expressão o João pode ser o João, Rui Moreira estava, como se sabe, a citar propositadamente uma escuta em que intervém o presidente do Benfica, publicitando o seu conteúdo. Trata-se de um comportamento completamente inaceitável e extremamente pidesco. E vice-versa. Pela minha parte, devo dizer que não participo em autos de fé, e não posso continuar a colaborar passivamente num jornal que se transforma num auto de fé. Não tenho, por isso, outra alternativa senão abandonar esta crónica durante dois parágrafos.
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Creio que a minha posição ficou clara, e espero que esta atitude simbólica contribua para moralizar o debate futebolístico e o próprio mundo em geral. Lamento ter chegado a este ponto, mas o caso é mais grave do que parece: Rui Moreira é reincidente neste tipo de conduta vergonhosa. No dia 26 de Fevereiro de 2010, o jornal i colocou a várias personalidades a seguinte pergunta: Depois dos episódios recentes relacionados com as escutas e o caso Face Oculta, mantém a confiança no primeiro-ministro? A resposta de Rui Moreira foi: «O primeiro- ministro tem que ser um factor de confiança perante o exterior e agora acho que passou a ser um factor de desconfiança perante o exterior». Sei que o leitor está tão chocado como eu. Rui Moreira não faz qualquer comparação entre a Santa Inquisição e as escutas (que todos os historiadores acham parecidíssimas), não condena os bandidos que as publicaram, nem se demarca da porcaria, da canalhice e da insídia. Não só conhece as escutas como as comenta, tendo mesmo o descaramento de tirar conclusões com base no seu conteúdo. Repugnante. Quando é que esta gente compreende que, nisto das escutas, tudo é indigno (menos o que lá é dito)?
Entretanto, parece que houve problemas no Trio d'Ataque, da RTPN. Não costumo assistir mas, ao que me disseram, um dos representantes do Porto no programa abandonou o estúdio — o que acabou por beneficiar o clube. Segundo ouvi dizer, a cadeira vazia teve, no resto do debate, uma postura mais sensata e digna do que o seu ocupante habitual costuma ter. Até nisto têm sorte, os portistas. Evidentemente satisfeitos com a nova representação, os responsáveis da SAD do Porto emitiram um comunicado no qual afirmam que o clube «não apoiará qualquer sócio ou adepto que venha a ser enquadrado como representante do clube, nem lhe prestará qualquer tipo de informação, pelo que todas as suas posições serão sempre pessoais» Na tentativa de manter a excelente cadeira como representante, o Porto decreta um blackout preventivo a um possível futuro comentador. Percebo a intenção, mas gostava que a RTPN arranjasse um substituto. Sem desprimor para os porta-vozes oficiais, seria refrescante ver um comentador do Porto cujas posições fossem, desta vez, sempre pessoais.
OS adeptos de futebol assistiram , na semana que passou, a um fenómeno meteorológico interessante. Todos conhecia mos o fogo-de-santelmo, uma luz provocada por descargas eléctricas na atmosfera, observada frequentemente pelos marinheiros. Parece mesmo fogo, mas não é. «Vi claramente visto o lume vivo», diz Camões n’Os Lusíadas. Esta semana, Portugal conheceu o penalty de Santeimo. Vi claramente visto o penalti nítido, teria dito o poeta, se tivesse escrito a epopeia do futebol português (e em hendecassílabos). De facto, na segunda- feira, o penalty era claríssimo. «São muitos dos meus jogadores a dizerem que é demasiado claro», declarou Villas-Boas. Apelou a que toda a gente metesse pressão na TVI para mostrar as imagens que, por capricho ou conspiração, se recusava a transmitir. «77:53!», bradava o director de comunicação, sem que se percebesse ao certo se estava a indicar um minuto do jogo ou um versículo da Bíblia que anunciava que o fim estava próximo para todos os que não vissem o penalty. As imagens, por manifesta má vontade, é que teimavam em não mostrar nada. Passou um dia. Deve ter havido reuniões. Que fazer? Atacar a credibilidade das imagens? Se as escutas não podem ser aceites como meio de prova, era o que faltava que as imagens pudessem sê-lo. Não, está muito visto. Não havia alternativa: era mesmo preciso fazer um mea culpa. Afinal, 24 horas depois, as buscas terminaram e o penalty não apareceu. O que era claríssimo passou a inexistente. Pois bem, devo dizer que não concordo. Na minha opinião, André Villas-Boas tinha razão na segunda-feira à noite. O lance que ocorre aos 77 minutos e 53 segundos do Guimarães - Porto é mesmo penalty. Trata se de uma jogada em que nenhum jogador adversário comete qualquer infracção às leis do jogo. Normalmente, é o que basta para ser penalty a favor do Porto. Há jurisprudência neste sentido. As regras do futebol são uma coisa, a tradição é outra. Um jogo em que o árbitro se limita a perdoar um penalty ao Porto e a protelar a expulsão do Fucile durante vários minutos continua a ser um escândalo, e não há imagens que me convençam do contrário.
No final do jogo, nem todas as declarações foram absurdas. «Vou ficar atento para saber se este árbitro vai de férias», avisou Pinto da Costa. Ora até que enfim. Não foi precisamente por falta de atenção às férias dos árbitros que certas facturas da Cosmos que foram pagas por engano? Pode ser que alguma coisa esteja a mudar.


Ricardo Araujo Pereira, 9 de Outubro in Jornal A Bola

9 comentários:

Anónimo disse...

RAP - O "Eusébio" dos cronistas!

Anónimo disse...

Grande RAP

Seismilhoesum disse...

Mais uma excelente do RAP! Mas esta está mesmo genial!
Já agora, como defensor da legalidade digo o seguinte:
Quando as escutas divulgadas (ilegalmente) são sobre o Porto e Pinto da Costa, comentá-las, entra-se no foro da ilegalidade, inquisição e autos-de-fé! Mas quando sobre Luis Filipe Vieira ou Sócrates, ou Freeport, são (ilegalmente) divulgadas, então pode-se comentar! Igualmente, pode-se condenar em praça pública (ou seja, sem julgamento) os (alegados) túneis, a acção do Sr. (JUIZ) Ricardo Costa e da (alegada) "escolha" de árbitros por parte de Luis Filipe Vieira!
É o que eu chamo a Democracia (e a consciência) de ELÁSTICO!

Anónimo disse...

fantastico....

Anónimo disse...

Grande Ricardo!
o texto diz tudo o que gostaríamos de dizer pessoalmente ao rui moreira mas, saliento uma frase genial:

"Entretanto, parece que houve problemas no Trio d'Ataque, da RTPN. Não costumo assistir mas, ao que me disseram, (um dos representantes do Porto no programa) abandonou o estúdio"

a parte que está entre parentesis, com uma subtileza inteligentíssima, passa tão despercebida que quase nem parece de propósito!
realmente, naquele programa, não sei se havia 1, 2 ou mesmo 3 representantes doo fcp
LOLADA

Anónimo disse...

Brilhante... mais uma vez.

Adeptos do clube da fruta e dos quinhentinhos: sabemos que custa aceitar, mas digam-lá, mesmo que seja baixinho, "para dentro" se quiserem, mas repito digam lá se este tipo não os tem no sítio?

Eheh carrega Ricardo!!!

Anónimo disse...

Basicamente...não prestas!

Afonso Costa disse...

AHAAHAAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH
è a única coisa a fazer neste país, só mesmo a rir.
Isto é Genial.

Muitos Parabéns, e Muito obrigado, adorava dizer isso na cara ao Senhor Rui Moreira, que ainda foi visto como um herói pacifista, por ter abandonado o programa e não ter cooperado mais com torturas...enfim.

Anónimo disse...

Crónica muito gira do modelo da Playboy

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