Da potência e da Impotência
O futebol ocupou uma posição tal na
nossa sociedade que o faz ser mais temido do que o próprio Estado de
onde emanam os governantes e as políticas a que nos sujeitam. Tome-se
põe exemplo o caso ainda fresco do presidente da Associação Comercial do
Porto que abandonou melodramaticamente, e em directo, um programa de
televisão de debate sobre futebolistas porque se recusou, em nome dos
bons princípios, a comentar escutas ordenadas por um juiz no âmbito de
um processo de investigação criminal.
O
processo em causa, com o folclórico e colorido nome de Apito Dourado,
incidia sobre práticas desleais protagonizadas por um sem número de
dirigentes, empresários e árbitros de futebol, sendo que o clube do
presidente da Associação Comercial do Porto era, sem margem dúvida,
aquele que protagonizava mais práticas desse quilate.
E
Rui Moreira, que é o nome do presidente da Associação Comercial do
Porto, sentiu-se de tal modo constrangido pela discussão do assunto, que
se levantou da cadeira onde estava sentado e foi para casa ofendido.
Não
deixa de ser curioso que, a 26 de Fevereiro deste mesmo ano de 2010, o
mesmo Rui Moreira não se tenha sentido minimamente constrangido, em nome
dos seus bons princípios, a responder a um inquérito do diário I que
lançava a seguinte questão: Depois dos episódios recentes relacionados
com as escutas e o caso Face Oculta. Mantém a confiança no
primeiro-ministro?
Fiquem pois
sabendo que o presidente da Associação Comercial do Porto não só não se
recusou a responder como até deu uma opinião bastante assertiva e
contundente: «O primeiro-ministro tem que ser um factor de confiança
perante o exterior e agora acho que passou a ser um factor de
desconfiança perante o exterior.»
Embrulha, Zé Sócrates!
Convém,
por ser verdade, esclarecer que o presidente da Associação Comercial do
Porto não foi o único a disponibilizar-se para comentar as escutas do
processo Face Oculta. Foi apenas um de uma lista de 50 individualidades
identificadas e com profissões e estatutos sociais tão importantes como
os empresários, economistas, sociólogos, escritores, presidentes de
associações cívicas, professores universitários, fiscalistas,
banqueiros, historiadores, penalistas, médicos, cientistas, militares e,
final e inevitavelmente, um psiquiatra que, por sinal, até teria muito a
acrescentar à discussão se nos quisesse explicar as razões desta
impotência de que padece tanta gente quando chamada a tratar do
intratável.
Compreendem agora que
não é disparate nenhum concluir que o futebol mete muito mais
respeitinho aos seus transeuntes do que a política e os políticos aos
seus cidadãos? Perante as belezas e os perigos dos vetustos monumentos
da bola nacional e o respectivo cortejo de vénias e de salamaleques aos
seus dons e aos seus doutores, qualquer primeiro-ministro não passa de
um Zé.
Ah, valentes!
APROXIMA-SE
o dia do FC Porto – Benfica, duas potências em conflito. O historial de
desacatos, desordens e vandalismos que antecedem o jogo propriamente
dito não deixa nenhum dos emblemas superiorizar-se moralmente ao outro.
Estamos
nestes casos, sempre e tristemente, perante um caso de polícia sendo
que a polícia, aparentemente, tem tanto medo destes delinquentes
enfarpelados com as cores dos respectivos clubes, como certos
intelectuais e empresários têm medo de comentar as escutas no Youtube,
desde que as escutas digam respeito apenas ao emblema do seu coração.
Tendo
frescos na memória os acontecimentos da última deslocação do Benfica ao
Porto – em que o disparo de bolas de golfe para o relvado se
acrescentou ao tradicional reportório de pedradas contra o autocarro da
equipa -, Luís Filipe Vieira fez-se receber pelo ministro da
Administração Interna e anunciou «uma grande surpresa» dando-se o caso
do Vermelhão voltar a ser atacado.
A
possibilidade de o Benfica dar meia volta e regressar a Lisboa foi
imediatamente aventada e, depois, elogiada ou criticada conforme os
afectos de cada um, o que é sempre o pior critério para avaliar
situações deste género cívico e que nada têm a ver com a questão
desportiva.
E lá voltamos nós à
questão da impotência, agora do Estado, responsável pela segurança
pública, quando o assunto mete o futebol e logo ao mais alto, ou ao mais
baixo nível, como é precisamente o caso. Tal como num jogo de futebol a
autoridade máxima é o árbitro, num país a autoridade máxima que vela
pela ordem nas ruas, nas estradas e nas auto-estradas é a polícia.
Na
noite de passada terça-feira, em Génova, deu-se um caso curioso e
exemplar. Estava marcada a realização do jogo Itália – Sérvia, de
qualificação para o Euro – 2012, mas o comportamento dos adeptos,
nomeadamente os sérvios, foi de tal modo criminoso que o árbitro, um
escocês chamado Craig Thomson, perante a incapacidade policial em
dominar os vândalos, resolveu suspender o jogo aos 6 minutos por não
estarem reunidas as condições de segurança indispensáveis a um
espectáculo público.
Não é de
crer que a UEFA á condenar o árbitro por ter tomado a resolução do bom
senso. Se uma coisa destas acontecesse em Portugal, o árbitro Thomson
estava tramado até ao fim dos seus dias...
COM Paulo Bento, a selecção nacional voltou à normalidade. E isto já é dizer muito.
O
Sporting queixa-se de ser perseguido pela Comunicação Social que não dá
tréguas às mais insignificantes ocorrências do universo de Alvalade.
Não tem razão o Sporting porque não há clube em Portugal que se ponha
mais a jeito para os comentários dos analistas e até dos humoristas que
são sempre os que mais fazem doer.
José
Eduardo Bettencourt esforçou-se na última semana a dar entrevistas à
RTP e ao jornal oficial do clube e ainda foi a Castelo Branco discursar
num núcleo de simpatizantes locais. À RTP repetiu que a equipa de
futebol estava «a um clique de distância» do sucesso, o que veremos se
vai ou não acontecer, e que, pelos menos, o Sporting «nunca tinha ficado
uma vez em 6.º lugar», o que é verdade. Também é verdade que o Sporting
nunca ficou 32 vezes em 1.º lugar...
Ao
jornal oficial do clube, o presidente regozijou-se pelo facto de já não
ver «pessoas a rirem-se com as derrotas no balneário», o que é
estranho. E em Castelo Branco afirmou que não podia dizer o que queria
«para não ser ridicularizado no exterior».
O que também é verdade. Uma grande verdade.
Leonor Pinhão, 14 de Outubro de 2010 in Jornal A Bola

3 comentários:
obrigado ao blogue e muito obrigado à Leonor, pela escrita sempre lúcida e tenaz.
e pluribus unum
Grande Leonor, ehehhehe! Sempre em cima deles.
Sobre o Moreira, dediquei-lhe um post, na minha humilde tentativa de fazer humor, aliás, dediquei-o ao APV, com base é no Rui Moreira, eheheh!
Abraço
Márcio Guerra, aliás, Bimbosfera
Bimbosfera.blogspot.com
Esta é que eu gostava de ver ao lado do guilherme de aguiar.
Enviar um comentário