sexta-feira, 28 de maio de 2010

Crónicas Leonor Pinhão


E longe foi o agouro

No verão passado, três dos jogadores que não serviam para o Real Madrid foram convidados a ir-se embora e mandados para outras paragens. Os holandeses Robben e Sneijder foram parar, respectivamente, ao Bayern de Munique e ao Inter de Milão e bem os vimos, aos dois, no sábado, a pisar o relvado do Estádio Santiago Bernabéu, jogando a final da Liga dos Campeões, essa mesma final que o Real Madrid tanto queria jogar na sua própria casa e a que não conseguiu aceder.
Sneijder, que não servia para o Real, venceu ao serviço do Inter o campeonato de Itália, a Taça de Itália e a Liga dos Campeões. Robben, que não prestava para o Real, venceu pelo Bayern o campeonato da Alemanha, a Taça da Alemanha e foi vice-campeão europeu. O terceiro jogador de que o Real Madrid se desfez, no Verão passado, foi Javi Garcia que teve como paragem o Estádio da Luz. Bendita a hora!
Javi García foi logo campeão em Portugal e ainda venceu uma Taça da Liga. E entre os sectores intelectuais do Benfica há quem o considere como o mais decisivo, o mais influente dos jogadores que vieram contribuir para a brilhante conquista do título nacional.
Ou seja, os dispensados do Real Madrid fizeram a felicidade de outros emblemas, não menos históricos e ambiciosos, enquanto os adeptos merengues se limitaram a contemplar o brilho fantasioso das suas inúmeras estrelas sem nunca terem contemplado o brilho concreto de nenhum troféu, de nenhuma tacazinha, nem sequer de uma salva de prata. E é destes brilhos concretos que vive o futebol e que sobrevive quem faz do futebol profissão ao mais alto nível.
Como José Mourinho, naturalmente. Incrível trabalho e merecida proeza de transformar um grupo de veteranos num grupo de campeões europeus.
Enganou-se quem agoirou durante seis anos que Mourinho nunca mais voltaria a ser campeão europeu.
Que engano delicioso.
Em Toronto, no nada amigável jogo com o Panathinaikos, Moreira terá feito o seu último jogo com a camisola do Benfica e assinou uma exibição de alto nível, conta quem viu.

Por outro lado, conta quem viu a entrevista do treinador do Benfica no programa televisivo Trio de Ataque, Quim não estará nos planos de Jorge Jesus e já lhe terá sido sugerido que esteja à vontade para procurar outro clube.
Aparentemente, conta quem adivinha, o Benfica continua a procurar no mercado estrangeiro um guarda-redes cujos méritos indiscutíveis lhe garantam a titularidade.
A baliza do Benfica continua, portanto, a ser um tema em discussão, o que não é bom nem para o Benfica nem para os seus guarda-redes.
No sábado vimos em acção no palco de estrelas de Chamartín um dos guarda-redes que não serviu para o Benfica, Hans-Jorg Butt, servir perfeitamente para o Bayern de Munique ganhar o campeonato alemão e chegar à final da Liga dos Campeões. E, de acordo com a imprensa do seu país, Butt é o mais sério candidato a ser o guarda-redes titular da Alemanha no próximo Mundial. Mas para o Benfica não serviu, o que dá que pensar.
É verdade que Butt também teve a pouca sorte de chegar ao Benfica num momento em que o Benfica não tinha sorte nenhuma, em que nada saía bem. Até parecia bruxedo. O guarda-redes alemão, por exemplo, chegou à Luz com uma folha de serviço impressionante e rara na sua posição. Ao serviço do Hamburgo e do Bayern Leverkussen, Butt tinha marcado um total de 28 golos através de pontapés de grande penalidade, arte em que era superiormente certeiro.
Camacho, que apostou em Quim para o campeonato, confiou a Butt a baliza do Benfica para a Taça da Liga. Num desempate com o Estrela da Amadora, bem no início da competição, Butt foi chamado para converter um dos cinco pontapés e ele, que nunca falhara, falhou ali mesmo, nem sequer conseguindo acertar com a bola na baliza.
Os adeptos torceram o nariz e passaram a olhar para o alemão de soslaio. «Olha-me este…» E, por tão pouca coisa, foi o fim de Butt no Benfica.
Este ano, para o campeonato, Óscar Cardoso falhou quatro grandes penalidades, deixou os benfiquistas à beira de quatro ataques de nervos, mas nunca terá sentido sinais de desconfiança vindos das bancadas, onde se senta o público, ou vindos do banco, onde raramente se senta o treinador, visto que passa a maior parte do tempo em pé.
É precisamente isto que se tem de fazer com o guarda-redes. Seja ele quem for.

Acabou o campeonato e acabou-se a clubite. Agora os adeptos olham para a Selecção como se fosse mesmo a tal «equipa de todos nós». Produzem-se sensações curiosas. Depois do tristonho Portugal-Cabo Verde, nulo no resultado e nulo no espectáculo, ouvi, pela primeira vez, alguns amigos meus de outros clubes, rivais do meu, dizer com um ar plenamente convencido: «Este Fábio Coentrão é mesmo muito bom jogador!»
Durante o campeonato, nunca tinham dado por isso. É a cegueira clubista, de que eles e nós, enfim, todos padecemos.
A Pior notícia do jogo com os cabo-verdianos foi a lesão de Tiago que levanta dúvidas sobre as suas capacidades de estar na África do Sul em pleno. Mas se Tiago, longe vá o agouro, não chegar a embarcar, qual será o jogador que Carlos Queiroz irá escolher para o substituir.
Ontem, ouvi um curioso diálogo de café entre um benfiquista e um sportinguista versando, precisamente, este tema:
- Cá para mim, levava o Rúben Amorim – dizia com toda a convicção o benfiquista.
- Cá para mim, levava o João Moutinho – ripostava com toda a convicção o sportinguista.
- O João Moutinho? – escandalizou-se logo o benfiquista.
- Qual é o problema? – foi a resposta que ouviu do sportinguista.
- Só se o Queiroz quiser reeditar na África do Sul aquele triângulo de ouro do meio campo do Sporting, Veloso, Pedro Mendes e Moutinho, que conseguiu ficar a 28 pontos do campeão.
Pronto, a conversa azedou imediatamente. É a cegueira clubista a triunfar sobre o espírito patriótico.

A entrevista de Hermínio Loureiro, presidente demissionário da Liga de Clubes, ao semanário Sol é uma peça exemplar para quem, um dia, queira escrever a História do último quarto de século do futebol português. Loureiro, que conta muita coisa, diz, no entanto, que é «impublicável» o teor do telefonema que recebeu de Pinto da Costa a anunciar-lhe a decisão do Conselho de Justiça da FPF sobre a redução dos castigos a Hulk e a Sapunaru.
E deve ter razão nas suas cautelas até porque, ao longo da entrevista, limita-se a relatar factos – a rábula da entrega da Taça é do mais elucidativo sobre a invenção de focos de conflito (lamentavelmente, há quem chame a isto uma arte) - , sem precisar de enveredar por acusações directas e sonantes. O mais longe que Hermínio Loureiro foi, neste campo, ficou-se pela «falta de educação» evidente.
Quanto ao teor do telefonema, quem sabe… talvez um dia… no YouTube.


Leonor Pinhão, 27 de Maio in Jornal A Bola

4 comentários:

jota disse...

Muito bom texto..

Carrega Leonor!

Tanque Silva disse...

Excelente como sempre.
Adicionei-te
www.armadavermelha.blogspot.com

Anónimo disse...

cheira sempre ao mesmo......

abraços

Anónimo disse...

sim...
cheira a puta!

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