sábado, 6 de março de 2010

Crónicas Ricardo Araújo Pereira


Os calimeros do túnel
Olhei para o Estádio do Mar, pouco depois do jogo começar: campo pequeno, relvado impróprio para jogar bom futebol e a favorecer quem defende. Público da casa que apenas queria ver a sua equipa bater o pé ao «grande», jogasse como jogasse, equipa disposta a fazer-lhe a vontade, recorrendo a todos os truques do anti-jogo que vêm nos compêndios, árbitro conhecido pela sua paixão benfiquista e pelos danos causados ao FC Porto ao longo dos tempos. Estavam reunidas todas as condições para o F.C.Porto encostar. E encostou

Miguel Sousa Tavares
16 de Fevereiro, 2010


Até prova em contrário, nas últimas duas semanas o campo de Matosinhos não cresceu. O relvado, tendo em conta as condições atmosféricas, estava igual ou pior.
O público, infelizmente, não foi submetido a sessões de reeducação que lhe tirassem aquela vontade malévola e incompreensível de ver a sua equipa ganhar.
A equipa, à medida a que o campeonato se aproxima do fim e ela mesma se aproxima do fim da tabela, estará cada vez mais disposta a fazer a vontade ao público.
O árbitro era, como são todos, conhecido pela sua paixão benfiquista. E foi certamente imbuído do mais profundo benfiquismo que invalidou um golo limpo aos visitantes ainda com o resultado em 0-0.
Estavam reunidas todas as condições para o Benfica encostar. E encostou.
Encostou o Leixões à sua baliza e não saiu de lá enquanto não lhes meteu quatro batatas no bucho.
Mas, claro, para o Benfica é fácil. O Porto tem tudo contra si.
O clima deseja que o Porto perca.
A relva deseja que o Porto perca. O próprio público adepto das equipas adversárias tem a desfaçatez de desejar que o Porto perca. Assim é complicado.

Depois de um pungente comunicado, de uma vigília de protesto e de várias proclamações de união e fervor regionalista, o Porto foi até Lisboa ser goleado. Perder por 3-0 costuma ser doloroso; perder por 3-0 contra este Sporting é especialmente humilhante. O facto mais espantoso da noite, porém, foi outro: José Gomes, adjunto do Porto, foi expulso no intervalo do jogo. Expulso depois do apito, imagine o leitor. Só a custo consegui conter a surpresa. Toda a gente sabe que os elementos da equipa do Porto só reagem mal às derrotas que sofrem em Lisboa se forem fortemente provocados pelos stewards da Luz. Que cabala obscura terá estado na origem da expulsão de mais um anjinho injustiçado? Que agravo ignóbil, que intolerável insulto? Por azar, o caso ocorreu quando ainda se discute o túnel da Luz, e na semana em que se recordou uma agressão antiga, também de um jogador do Porto, e também num estádio da região da Grande Lisboa. Fernando Mendes agrediu, na Amadora, um bombeiro — que a Comissão de Disciplina da Liga e o Conselho de Justiça da Federação consideraram interveniente no jogo. Mas como, se o bombeiro não está sujeito à disciplina desportiva? A questão não se colocou. Mas e se os clubes contratarem bombeiros e os industriarem no sentido de causarem graves danos físicos aos jogadores adversários? Ninguém se lembrou de perguntar. Porquê? Porque o castigo, com a duração dos mesmíssimos três meses aplicados a Hulk, foi decidido 13 meses depois dos acontecimentos, já Fernando Mendes representava o Belenenses. A diferença é que, agora, o castigo foi decidido ao fim de dois meses mas, ao que parece, os portistas vão passar 13 meses a queixar-se.

Receio bem que as constantes referências às toupeiras do túnel remetam para segundo plano os calimeros do túnel, bicharada que merece protagonismo superior. As toupeiras do túnel, pelos vistos, limitaram-se a escavá-lo — o que não constitui grande proeza. Mas a actividade dos calimeros do túnel é bem mais vasta. Os calimeros do túnel carpiram a ausência do Hulk, injustamente castigado só por ter participado num espancamento, fizeram comunicados públicos, e organizaram vigílias que só não foram mais participadas porque manifestantes como Bruno Pidá, por exemplo, tinham outros compromissos. Falta uma greve de fome e uma queixa na ONU, mas acredito que os calimeros do túnel terão o discernimento de diversificar as suas formas de luta pela justa libertação do mártir espancador. Mesmo sendo benfiquista, não posso deixar de apoiar todas estas iniciativas. Eu também não tenho dúvidas de que um dos factores que explicam o terceiro lugar que o Porto ocupa é esse túnel maldito que os privou de dois jogadores: mais precisamente, o túnel do Marselha, por onde costuma entrar em campo Lucho González, e o túnel do Lyon, no qual costuma ser visto Lisandro López. Mais: como benfiquista, eu sei bem o que uma equipa sofre por ficar privada de elementos mais ou menos influentes. Não me esqueço de que, por não poder utilizar Di Maria, Fábio Coentrão e Aimar, o Benfica conseguiu ganhar apenas por magro 1-0 a um Porto na máxima força, com Hulk e tudo. Obter resultados fracos assim custa, bem sei. 

Ricardo Araújo Pereira, 6 de Março in Jornal A Bola

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