sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Crónicas Leonor Pinhão


Da importância dos episódios colaterais

NO futebol ganhar não é tudo. É a única coisa. Normalmente, há sempre uns que ganham mais vezes do que os outros. E é mesmo normalmente. Acontece por todos os cantos do nosso planeta redondo onde se joga futebol. E sem que nada de anormal se possa apontar ao fenómeno. Estamos a falar de títulos nacionais, entenda-se bem.
Por exemplo, em Itália, pátria dos campeões do mundo, Milan, Inter e Juventus são os históricos que entre si mais títulos dividem deixando para os demais apenas as sobras, muito poucas, da glória máxima.



Em Inglaterra, pátria dos inventores do futebol, Manchester United e Chelsea são os grandes vencedores da última década e para os outros pouca coisa boa restou.


Em Espanha, pátria de Javi García e de Juan Barnabé, treinador da águia Vitória, são os grandes Real Madrid e Barcelona os que, desde sempre, melhor têm dado conta do recado e raramente deixaram brilhar os restantes candidatos.


É por isto que nos países onde o futebol é levado muito a sério acabam sempre por nascer grandes desamores entre os clubes que, historicamente, disputam entre si os ceptros, as taças, as honrarias e, finalmente, o poder. Concluindo, não se podem ver nem pintados.


E porquê?


Porque no final de cada temporada, não há nada de mais deprimente para os adeptos de um grande emblema do que observar de longe os adeptos do grande emblema rival a comemorar rijamente um triunfo que, indecentemente, se lhes escapou.


E, a meio de cada temporada, não há nada mais angustiante para os dirigentes de um grande emblema do que olhar para a tabela classificativa e ver o grande emblema rival bem lançado lá no topo e com mais uma meia dúzia de pontos somados.


Quando isto acontece — e acontece sempre ou a uns ou a outros, porque só um pode ganhar — entram os responsáveis naquela fase de procurar responsabilidades em episódios colaterais e de menor importância que entretenham e satisfaçam as massas de adeptos descontentes a quem são apontados culpados, normalmente sem culpa rigorosamente nenhuma.


É, precisamente, o que se está a passar neste momento com os responsáveis do Real Madrid.


Segundo a imprensa espanhola, os dirigentes do Real Madrid e os responsáveis pelo departamento de marketing do gigante de Chamartín «não vêm com bons olhos» a fulgurante participação de Cristiano Ronaldo na última campanha publicitária de roupa interior masculina para a Armani.


Ora aqui está um belo exemplo de episódio colateral!


Protestam os dirigentes contra Cristiano Ronaldo porque o clube que o contratou por uma grande fortuna, investiu também, no Verão passado, uma pequena fortuna para lançar no mercado uma linha de roupa interior masculina e feminina exclusiva para os sócios e adeptos do Real Madrid. E, agora, com Cristiano Ronaldo, em todo o seu esplendor, a vender pelo mundo inteiro cuecas assinadas por Giorgio Armani torna-se evidente, para os incautos, que o português está a prejudicar o negócio do seu patrão, ou seja, o merchandising da casa que lhe paga o salário.


Grande logro, não concordam?


Porque o que está a prejudicar o negócio do patrão Florentino Pérez e os lucros do merchandising da casa blanca não são as cuecas Armani de Cristiano Ronaldo. São os 5 pontos de atraso que o Real Madrid leva, nesta altura do campeonato, do seu grande rival Barcelona, bem lançado no topo da tabela e, uma vez mais, a jogar o mais entusiasmante futebol.


Depois de, na temporada passada, ter visto o Barcelona ganhar literalmente tudo o que havia para ganhar, o presidente do Real Madrid fez aquilo que a sua bolsa mais o seu crédito na banca lhe permitiram fazer. Gastou milhões, milhões e milhões e, de uma assentada, levou para a capital espanhola o português Cristiano Ronaldo, comprado ao Manchester United, e o brasileiro Kaká, comprado ao Milan, que provavelmente são dois dos melhores jogadores do mundo. Chegada a época a Janeiro, e olhando para a classificação do campeonato espanhol, parece que o investimento não resultou da forma aritmeticamente simples em que Florentino Pérez confiava: dinheiro mais dinheiro, igual a vitórias.


Para os adeptos de futebol de todo o mundo, as contratações de Ronaldo e de Kaká pelo Real Madrid não são contratações falhadas porque, mesmo quando o Real Madrid perde ou empata, é sempre um gosto enorme vê-los jogar. No entanto, para os adeptos do Real Madrid (e é neles que pensa o presidente Pérez), apesar de Ronaldo e de Kaká, a intolerável distância para o Barcelona (e é em Camp Nou que os adeptos de Chamartín pensam) não só não diminuiu como parece estar a aumentar.


Foram, portanto, contratações falhadas. Ou estão a ser. Daí a necessidade de fornecer aos adeptos do Real, com carácter de urgência, o episódio colateral da roupa interior Armani. É normal.


EM Portugal também há grandes emblemas que, desde os primórdios, discutem entre si os títulos. Quando um se adianta logo significa que os outros se atrasam. E a depressão dos adeptos e a angústia dos dirigentes de quem ficou para trás é também facilmente compreensível. É uma grande normalidade, pelo menos para muita gente.


Mas não é normal para toda a gente.


Raul Meireles, o excelente centrocampista do FC Porto, foi o primeiro a assinalar os desvarios da corrente época. Depois da derrota com o Benfica, na Luz, Meireles, o autor do golo que, na Bósnia, selou a qualificação portuguesa para o Mundial deste ano, disse com toda a razão: «Não é normal o FC Porto estar em terceiro lugar.» Já Jesualdo Ferreira confessou que «não é normal» a sua equipa sofrer golos como os que sofreu frente ao União de Leiria.


São, como se depreende, os 6 pontos de avanço que o Benfica e o Sporting (de Braga, note-se) levam sobre o FC Porto, ainda que recuperáveis, que explicam todas estas não-normalidades acrescidas da anormal inconsistência do lote de contratações latino-americanas que o FC Porto bancou: Bollatti, Guarín, Belluschi, Valeri e Prediger.


Para os adeptos do FC Porto serão, pragmaticamente, contratações falhadas.


E, por isso, há que inventar rapidamente um Armani qualquer! Mas como, se o Armani não conhece ninguém do pessoal daqui?


BONITO o chapéu de aba larga com que o esquerdino Lima desfeiteou Beto e abriu o marcador, no Restelo, para o Belenenses. Foi mesmo bonito embora não se compare ao chapéu que vimos todos Saviola fazer a Rui Nereu, na goleada do Benfica sobre a Académica. O toque de Saviola, na verdade, nem produziu um chapéu, produziu um arco-íris, tal a perfeição da curva desenhada.


O FC Porto e o Sporting começaram quase de forma idêntica a sua jornada de ontem na Taça. Aos 20 minutos de jogo estavam ambos empatados 1-1 com os respectivos adversários. Mas, depois, os rapazes do Mafra foram bem mais simpáticos do que os do Restelo que deram algum trabalho aos campeões nacionais.


No fim, enfim, tudo normal. Ou talvez não, dependendo do ponto de vista.


Leonor Pinhão, 21 de Janeiro de 2010 in Jornal a Bola

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