quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Deixem o Cardozo falhar...

Poderão os benfiquistas mais ingénuos andar preocupados com o desacerto de Óscar Cardozo quando se trata de marcar grandes penalidades. Descansem, sosseguem, sorriam porque Cardozo limita-se a cumprir, com um estóico sentido de disciplina, a superior missão que lhe foi confiada no balneário.
— Óscar, filho, nem te atrevas a acertar no fundo das redes. Quando o senhor árbitro apontar para a marca de 11 metros só tens duas hipóteses. Bola para fora ou bola à figura… — ordenou-lhe, com firmeza, Jorge Jesus de olhos nos olhos, fazendo sentir ao paraguaio a importância da situação.
Cardozo nem pestanejou. Timidamente, limitou-se a insinuar uma dúvida que o assaltou no momento em que ouviu o que ouviu do seu treinador:
— Ainda há uma terceira hipótese, mister Jesus...
— Não há nada, bola para fora ou bola à figura!
— E bola ao poste?
— Nem pensar nisso, é muito arriscado… Quem te garante que tal tentativa de minúcia na pontaria não acabe mal…
— Em golo? — questionou Cardozo, atónito.
— Sim. Em golo. E, Óscar, filho, nós não podemos nesta altura do campeonato converter nenhuma grande penalidade. É uma questão estratégica, olha que eu ando nisto há muitos anos e sei do que estou falar! — disse mister Jesus com tal veemência que o goleador sul-americano viu-se obrigado a dar a conversa por encerrada.
Diga-se, em abono da verdade, que Cardozo tem sido impecável. Já falhou três grandes penalidades, a primeira na pré-época e, com grande desplante, duas nas primeiras duas jornadas do campeonato.
Os benfiquistas podem andar preocupados. Mas Jorge Jesus está radiante embora lhe tenha demorado uma boa meia hora a explicar aos altos comandos da SAD da Luz a superior razão deste sacrifício. Mas, no fim, deram-se todos por esclarecidos, naturalmente…
O treinador entrou a matar na reunião. Estavam todos os executivos do Benfica sentados à volta de uma mesa que de tão limpa até brilhava e preparavam-se para cobrar ao mister Jesus a contumaz ineficácia do paraguaio no momento da decisão. É que nem tiveram hipótese de abrir a boca…
— Meus amigos, lembram-se daquele excerto das escutas do processo do Apito Dourado em que dom fulano diz a dom beltrano: «Eh pá, é tudo uma questão de hábito»…? — perguntou-lhes o treinador.
Pois não se lembravam. Incrível.
— Então é por isso que nos temos que habituar a ver o Cardozo a falhar penalties? — assomou-se um administrativo com tal dislate enquanto ajeitava o nó da gravata.
Levou logo uma grande rabecada. Respondeu-lhe, de cátedra, Jorge Jesus enquanto desajeitava o nó da gravata:
— Oh filhos, abram a pestana! A questão não é habituarmo-nos a ver o Cardozo a falhar penalties, a questão é muito mais à frente do que isso. O que nós temos de fazer é habituar os árbitros a marcar penalties a favor do Benfica sempre que os nossos adversários cometem infracções dentro da sua área, coisa que raramente acontecia como devem estar recordados…
Não perceberam nada do que mister Jesus lhes dizia. Pelo que mister Jesus teve de lhes explicar devagarinho, quase que soletrando:
— A única maneira de habituarmos os senhores árbitros a marcarem os devidos penalties a nosso favor é darmos-lhes, como garantia, que o referido castigo máximo vai ser falhado no momento da execução…
Rui Costa teve, neste momento, um ataque de riso. E disse em voz muito baixa, quase só para ele:
— De facto, este gajo percebe mais disto que o Quique…
Inspirado pela boa disposição do maestro, mister Jesus continuou, imparável
— Imaginem vocês, caros doutores, filhos, quantos penalties teriam sido marcados a favor do Benfica nos últimos 20 anos se os senhores árbitros tivessem a certezinha absoluta que os nossos pontapeadores não acertavam na bola nem na baliza?
Foi um verdadeiro sururu à mesa. Todos tinham de repente uma opinião literalmente abalizada:
— 127 penalties! — gritou um administrador.
— Qual quê?! 259!
— Que exagero, 86 penalties! — contrapôs o administrador que presidia à sessão.
— 86? — escandalizou-se mister Jesus. — Você só diz isso porque é lagarto!
A coisa ia ficando feia e foi aí que Luís Filipe Vieira, que estava à janela a falar ao telemóvel, se viu obrigado a intervir, pondo cobro à altercação.
— Façam o favor de deixar o senhor Jesus terminar o seu raciocínio!
Fez-se logo silêncio. E o treinador prosseguiu:
— O Benfica anda a ser enganado há décadas e chegou o momento de ser o Benfica a enganá-los. Vocês sabem, por experiência própria, que aquela choradeira dos árbitros e dos coitadinhos não vos levou a lado nenhum. Antes pelo contrário… quanto mais choravam mais os outros se riam. É ou não é?
— É! — responderam todos em coro.
- Então, como isto aqui se trata de uma questão de hábito, de acordo com as gravações da Judite…
— Mas quem é a Judite? — perguntou um executivo distraído.
— Eh pá, cala-te! — foi a resposta que recebeu da assembleia cada vez mais interessada e atenta.
Jesus esteve quase a perder a paciência. Mas prosseguiu:
— De acordo com as gravações da P.J., se a questão é de «hábito» vamos habituá-los a marcar grandes penalidades a favor do Benfica dando-lhes como garantia que as bolas não entram… Oferecemos-lhes a ilusão da honestidade e eles ficam todos contentes. Até acham que vão para o céu…
— Mas nós, se falharmos os penalties, acabamos no inferno… — atirou um administrador céptico.
— Oh filho, tenha calma! — respondeu-lhe mister Jesus. — Uma coisa de cada vez. Primeiro vem o hábito de apitar para a marca dos 11 metros e isto é que é verdadeiramente difícil de atingir. Depois, metê-las lá dentro é quando quisermos e nos fizer falta!
— Mas metê-las a quem? — perguntou o tal executivo ditraído.
— Às bolas, porra! — gritou o presidente que estava feito com o treinador desde o princípio da reunião.
E assim acabou a conferência.
Portanto, em conclusão, calma benfiquistas. Sosseguem. Sorriam. Deixem o Cardozo falhar..
Já sabem a última? Depois do malandro do Adriano ter desancado à pancada um grupo de sacristãos à porta da missa não é que um fotógrafo do Jornal de Notícias atropelou o carro onde seguia o presidente do FC Porto depois de uma sessão de tribunal? E nem parou para pedir desculpa…

Por Leonor Pinhão, Edição 27 de Agosto 2009 - Jornal "A Bola"

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